“Desde 2015 que o PIB de Angola está a derreter como um gelado sem pudermos chupar”

Professor de Macroeconomia, Yuri Quixina considera ‘utópico’ estimar poupança de 3 mil milhões de dólares numa economia em recessão e com dívida 112% acima do PIB

O país observa o prolongamento do estado de emergência, mas com medidas mais flexíveis. O que lhe parece?

Penso que estamos a desconfinar sem estratégia. Era necessário, tal como os outros países estão a fazer. Devia ter-se criado uma equipa forte, multidisciplinar, que integrasse as diversas áreas do saber científico, porque reunir apenas o Conselho da República não é o melhor caminho. Nenhum país está a fazer isso. Acho que Angola é o único país, os integrantes do Conselho da República são pessoas que também estão confinadas e recebem toda a informação tal como todos nós. Seria mais útil que o Presidente recebesse aconselhamento especializado.

A Consultora Oxford Economics prevê recessão de 9,3% para economia angolana em relação ao PIB, a maior queda da África subsahariana. A guerra de preços do petróleo e a pandemia são as principais razões. Qual será o impacto?

Tirando o FMI, que prevê 1,4%, e o Banco Mundial, que têm juros a receber de Angola, no negócio com o nosso país, todas as instituições internacionais prevêem uma redução da riqueza acima de 3%. E a ONU fala em 11% de recessão este ano. Não duvido, porque desde 2015 que o PIB de Angola está a derreter como um gelado, sem pudermos chupar. E mais: esse gelado compramos com dívida que ainda não foi paga. A maioria dos países da África Subsahariana terá esse problema, por dependerem excessivamente de matérias-primas, razão que faz de Angola a campeã da região, por causa da dependência do petróleo.

O estudo da Oxford Economics indica que ‘as políticas de isolamento social provocarão redução na despesa pública em 32%’. Como inverter o quadro?

Estamos a falar das economias da África Subsahariana, onde o Estado é que faz quase tudo. O consumo nesses países é muito impulsionado pelos governos e o resto da economia é de característica informal. Qualquer medida para inverter o quadro carece de um bom diagnóstico. Mas os governos entraram em stress e estão a dar ‘tiros’ no ar, com o risco de perigar ainda mais a sustentabilidade das economias.

Então, como entender a possibilidade de o Governo vir a poupar cerca de 3 mil milhões USD este ano, segundo a Unidade de Gestão de Dívida?

Estamos perante uma previsão e previsão é como um sonho. O Ministério das Finanças sonha poupar três mil milhões de dólares até ao final do ano. Para a economia de Angola sair da situação em que se encontra depende três de P´s: Poupança, Produtividade e Procura externa. Este seria o foco da nossa estratégia. É menos provável termos essa poupança porque com a pandemia tornou-se mais complicado. Mas essa estimativa tem mais duas perspectivas. A primeira se parece com propaganda, porque soa bem aos ouvidos do investidor estrangeiro, mas a melhor via para atrair investimento directo estrangeiro é o crescimento. Mas é desvantajoso para o país, porque tem uma dívida 112% acima do PIB. Quando um credor ouve essa estimativa recua na decisão de reestruturar ou perdoar dívida.

Espera-se que mais de um milhão de famílias saiam da linha da pobreza até 2022, através do ‘Programa de Fortalecimento da Protecção Social em Angola’. É este o caminho de combate à pobreza?

Como técnico e economista de livre iniciativa, não. O título do programa se parece mais com propaganda política. Isso não é um título técnico de quem entende como combater a pobreza. Para o país tirar essas famílias da pobreza tem de crescer acima de 4%. Estamos a falar de um país cuja taxa de desemprego é acima de 32%. O desemprego não se combate com subsídios. Nem é lógico, porque a riqueza está a derreter. Onde o Estado vai buscar esse dinheiro? É dívida, porque não há crescimento económico, os cofres estão vazios e há um problema enorme nas contas públicas. E em relação aos municípios indicados, estamos a ir muito distante. Aqui no Cazenga, Sambizanga, em Luanda, tem famílias nas mesmas condições. Isso até é brincar com os sentimentos das pessoas. A maior parte dos angolanos é pobre.

Mas é necessário começar de algum lado, não?

Começar por um lado devia ser estimular o empreendedorismo e as pessoas serem donas de si mesmas.

Mas a crise imposta e agudizada pela Covid-19 não justifica a medida?

Essa medida foi muito antes da Covid-19. Em Outubro já se falava disso. A Covid-19 é um argumento político e não técnico. De 2020 para frente serão anos políticos, porque estamos a nos aproximar das eleições e há que sinalizar boa governação.

 

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