Projecto de protecção de tartarugas angolanas em concurso internacional

O Cambeú, um projecto de protecção de tartarugas das praias de Benguela, está entre os 40 seleccionados no concurso internacional promovido pela organização Sea Turtles. O jornal OPAÍS conversou com a cofundadora do projecto Luz Le Corre, que, para além da importância do concurso, falou das dificuldades que têm encontrado na protecção desses animais

A participação do projecto Cambeú no concurso, para além de projectar o nome de Angola a nível internacional naquilo a que a protecção de tartarugas diz respeito, ajudará, caso venha a ganhar, o referido projecto a colmatar dificuldades que têm a ver com o transporte para patrulhar as praias, bem como a criação de materiais de sensibilização.

O projecto Cambeú, que teve início em 2017, concorre por uma gratificação de cinco mil dólares, por constar entre os 40 seleccionados pela organização Sea Turtles. Para ganhar o concurso deve receber o maior número de votos, que devem ser feitos no endereço (www.seaturtles.org/vote), e um voto por cada pessoa.

“Somos o único projecto a concorrer por Angola e, se ganharmos, a nossa ideia seria comprar uma motorizada de quatro rodas para patrulhar mais quilômetros de praias e protegermos mais tartarugas. Caso reste algum dinheiro, vamos imprimir os materiais de apoio para a sensibilização da população a não caçar este animal e sobre a importância de os proteger”, disse Luz Le Corre.

Reconheceu que o projecto precisa de muita coisa, mas o prioritário é um meio de transporte, pois, na época em que as tartarugas colocam os ovos, de Outubro a Janeiro, têm de percorrer longos quilômetros a pé para salvar estes animais. Uma motorizada de quatro rodas poderia ajudar bastante na patrulha e recolha dos ovos das áreas de risco.

As áreas de risco são aquelas onde há maior presença de caçadores e violabilidade dos ninhos, e o projecto retira os ovos e coloca-os em locais seguros até que nasçam os pequenotes.

O Cambeú é um projecto sem fins lucrativos, sustentado pelos fundadores e o apoio de alguns parceiros, como o Grupo Soba, que tem ajudado, segundo a interlocutora, na compra de alguns materiais logísticos.

Covid-19 “congela” sensibilização da população

O projecto tem um livro já feito, em formato digital, que no âmbito da educação ambiental ensina a cuidar das tartarugas. Por isso, caso venham a ganhar o concurso, com o que restar da compra da motorizada pretendem imprimir o livro para fazer chegar a mais gente, nomeadamente nas escolas e igrejas com as quais trabalham.

Em tempo de Covid-19, as actividades de sensibilização estão paradas, bem como as de formação de voluntários, mas o projecto conta com pelo menos 13 voluntários, na Restinga – Lobito.

Resistência à mudança por algo que se tornou cultural

Em muitas partes do nosso país o consumo de carne (bem como do ovo) de tartaruga é tido como algo normal, porque os seus ancestrais assim procediam. Há quem defenda mesmo que nada mais sabe fazer senão caçar este tipo de animal e comercializar a sua carne, tanto fresca como seca.

O projecto Cambeú tem encontrado alguma resistência por parte de alguns moradores da conhecida Praia Bebé na mudança de hábitos de consumo deste tipo de carne e ovo. O local é tido como uma das zonas mais perigosas para as tartarugas, porque acabam quase sempre assassinadas.

“Nesta praia, nós fizemos uma reunião com o soba e com a Administração. Tivemos um grupo de jovens que fez a formação teórica e, na hora da prática (em campo), os voluntários depararam- se com os caçadores que os ameaçaram com facão, na primeira patrulha. Na segunda patrulha tivemos de pedir o apoio da Polícia”, disse.

Luz conta que mesmo com a presença da Polícia, o caçador que os ameaçou com um facão apareceu e agiu da mesma forma, tendo acabado detido por alguns dias. Por ser um mais velho, a comunidade ficou muito brava com o pessoal do projecto Cambeú, de tal forma que os dois voluntários da Praia Bebé não terminaram as aulas práticas.

O local é a foz do Rio Catumbela e mais tartarugas afluem para este local. Para a tristeza do meio ambiente é também neste local onde acontecem mais chacinas deste animal.

Por isso, o Cambeú pretende investir mais na sensibilização da população daquele local e, só depois, com uma motorizada e com a escolta da Polícia, fazer um patrulhamento mais rápido.

“Acreditamos que primeiro temos de contactar mais outras entidades tradicionais para que estes nos ajudem na sensibilização. Outro problema é que, falar só para não consumirem a carne de tartaruga e os ovos não é suficiente para que eles deixem, pois é preciso arranjar outra maneira de sustentar as suas famílias”, defende. Luz Le Corre acredita que a zona tem um potencial elevado para o desenvolvimento económico através do turismo, por ser uma área muito bonita, que poderia ser transformada em reserva natural, mas a que os moradores não dão o devido valor. Deve-se dar a conhecer a beleza da área, para que as pessoas visitem e se consiga despertar o verdadeiro valor ecológico. Para além do turismo, pode- se explorar o artesanato, segundo a entrevistada.

Carne e ovo de tartaruga prejudiciais à saúde

O projecto Cambeú trabalha com um biólogo, Mário Pereira, da Universidade de Aveiro, que explica que estas tartarugas, por serem animais migratórios (que viagem pelo mundo), podem ir para áreas contaminadas (onde houve derrame de petróleo ou de algum outro químico na água) e ficarem contaminadas após consumo de alimentos contaminados.

“Quando elas voltam, e porque a tartarugas sempre voltam para o local de nascença para deixarem os seus ovos, os caçadores matam-nas, comem ou vendem a carne contaminada, porque o material radioactivo continua na carne. Para além disso, correm o risco de apanhar a doença que desenvolvem as tartarugas, como o papiloma”, explica a perigosidade do consumo da carne de tartaruga.

Não parando por ali, a entrevistada falou do perigo do consumo do ovo de tartaruga, que tem alto teor de salmonelas (que causam febre tifoide) e outras parasitas. A casca do ovo de tartaruga não é dura como a do ovo de galinha e, quando elas colocam os ovos, deitam um líquido que facilmente penetra e contamina o que se consome.

Aquela não é a única contaminação do ovo, pois depois de os colocarem, a tartarugas os tapam e, dada a fragilidade da capa, os germes que estiverem na areia podem penetrar. “E, como sabemos, as praias não são totalmente limpas. Por isso é que não é aconselhável o consumo, nem da carne, nem do ovo de tartaruga”, acrescentou.

Para finalizar, Luz Le Corre, cofundadora do projecto Cambeú voltou a frisar a necessidade de as pessoas votarem e mobilizarem outras ao voto. Para votar basta aceder ao link: https://act.seaturtles.org/ page/17831/data/1 ; preencher os seus dados (nome, e-mail, cidade, país); selecione o Projecto Cambeu, na lista de candidatos; dizer que não é um robot, e votar.

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