“As expressões de uma artista em confinamento” revoltada contra a Covid-19 em exposição online

“Eu posso estar em confinamento, mas a minha mente não. Eu posso ser livre dentro de uma cadeia. Tudo depende de mim, e eu escolho a liberdade”, manifesta a autora da obra, Fineza Teta, com este seu apelo

A artista plástica Fineza Teta manifestou “espírito de revolta” contra a Covid-19 na sua mais recente obra, “As expressões de uma artista em confinamento”, cuja exposição está patente online na sua página do Facebook com o mesmo nome.

Esta obra, segundo a sua autora, é o resumo de um estado de emergência sobre as nações, especialmente sobre Angola, dentro das circunstâncias actualmente impostas no quotidiano das pessoas pelo novo coronavírus.

“Surgiram-me diversos sentimentos, criei situações dentro de mim, para poder entender o confinamento. São exercícios mentais diários, e questionamentos permanentes que resultaram numa colecção de expressões espontâneas em torno da plasticidade”, refere.

Fineza Teta faz um paralelismo entre a sua obra e “Guernica”, uma das mais famosas pinturas de Pablo Picasso concebida em 1937, que retrata sobre a contrariedade “a declaração de guerra contra a guerra e um manifesto contra a violência”.

Assim, a mostra “As expressões de uma artista em confinamento, neste contexto, reflecte um protesto contra a guerra, violência, ganância e a outros sentimentos egoístas de potências mundiais.

“Reflectir sobre a dádiva do direito de ‘ir’e ‘vir’ é o que nunca foi analisado como o ‘estar’ e o ‘ser’. O uso obrigatório de máscaras, fez-me reflectir sobre a grandiosidade e o respeito pelo fôlego da vida. Aqui nascem as expressões para dizer que sou livre. Embora esteja em confinamento, o conceito dessas expressões é dizer que eu posso tudo, mas que o tudo me responsabilizará pelas minhas atitudes, e, que, por vezes, nem mesmo na nossa residência estamos seguros, se os demais não forem responsáveis como nós”, disse.

Exposição online

Pelo menos em Angola, a experiência de uma exposição online é nova e se adequa ao período em que o país se encontra. Os artistas, caracteristicamente criativos, reinventam-se conforme a realidade.

“As expressões de uma artista em confinamento” de Fineza Teta, apesar de ser para um público digital, foi concebida através de uma mistura de técnicas de acrílico, colagem, manipulação de matérias diversas sobre uma base multimídia e tecnológica.

“Há dois anos estive em Shenzhen [China], numa formação, e dentro de uma galeria estava uma exposição a ser vista, em tempo real, por renomados coleccionadores através da Internet, mas isso numa sala privada. Por exigência de alguns artistas e curadores, de forma a preservarem a imagem dos seus potenciais compradores, o que levou- me, na altura, a pensar numa futura opção de apresentação naquele formato”, explica.

Entretanto, a artista nunca pensara que tal fosse vir a acontecer em confinamento ou estado de emergência como o que se está a viver. Mas ainda assim, aproveitou o momento para explorar a sua plasticidade. Apontou a artista relativamente ao surgimento desta ideia criativa na Internet.

A artista plástica revelou que tem recebido telefonemas de pessoas interessadas em visitar a exposição e a solicitarem que a mesma fosse exposta numa galeria, porém, sobre isso ainda não tomou uma decisão.

Embora tenha vivido noutras partes do mundo, Fineza conta que o isolamento para si é algo novo a que se tem estado a adaptar, desfrutando dos momentos em família, das coisas de que só apercebeu-se devido a essa fase, como o respeito e valorização de um afecto verdadeiro.

Adesão

Sobre como a obra está a ser recebida, a autora respondeu que com muita positividade. “As pessoas perguntavam se os artistas plásticos poderiam participar na campanha actual de luta contra a Covid-19, e como poderíamos responder as exigências do nosso público em confinamento. Nesta exposição, quero, sobretudo, dizer que eu posso estar em confinamento, mas a minha mente não. Eu posso ser livre dentro de uma cadeia. Tudo depende de mim, e eu escolho a liberdade”, exclamou.

Prejuízos causados pela Covid- 19

A pandemia até ao momento já lhe causou vários prejuízos, enquanto artista, de formas que ela vive e ganha o seu sustento mediante aquilo que produz.

“Podíamos até vender, mas neste momento as vendas foram todas afectadas e então não há rendimento, e nos próximos meses tende a agravar, porque sei que a produção da maioria dos artistas caiu 70%, porque uma boa parte dos artistas trabalha com o seu estado de espírito, isso dificulta muito”, esclareceu.

Dividir o espaço por mais de uma semana com pessoas é frustrante para os artistas, pois este profissional precisa de momentos a sós para produzir, porque as suas responsabilidades não param: como contas a pagar, conforme relata Fineza Teta.

“No meu caso, prefiro nem pensar. Tenho uma galeria encerrada com funcionários por pagar, rendas para regularizar. Só Jesus me pode ajudar, porque empresários na minha área nunca são abrangidos nos planos de financiamento. Só me de ser a orar a Deus”, disse.

Projectos

Teta disse que para este ano tinha uma agenda rica, especialmente em Março, em que celebrouse o Dia Internacional da Mulher.

“Já tinha contratos assinados para exposições e projectos, palestras e outras responsabilidades profissionais que tive de cancelar e adiar algumas e outras que estão a ser renegociadas, neste momento. Resumindo, só posso adiantar que dependendo do rumo desta situação, há surpresas agradáveis a caminho, é o que posso adiantar”, partilhou.

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