Nós e os imaginários que nos foram impostos

Muitos cristãos africanos ainda não conseguem imaginar um Cristo de pele escura, como foi descoberto em 2008 por cientistas britânicos e arqueólogos israelitas. Apesar do trabalho desses peritos, que conseguiram recriar um rosto próximo ao que Jesus Cristo tinha, usando a antropologia forense, um método usado pela Polícia para resolver crimes, o imaginário construído em torno de Jesus de Nazaré permanece potente, especialmente entre os povos colonizados.

Para alguns africanos, até seriam blasfemadores todos aqueles que ousassem imaginar o filho de Deus fora da estrutura de uma criatura quase élfica, ou seja, um homem branco, alto, magro, com cabelos longos, aproximadamente, como um loiro finlandês. Uma das minhas cunhadas, angolana e negra, ficou escandalizada ao ver um dia num teatro kimbanguista a representação de um menino Jesus africanizado e negro. Impostores!, berrou com desprezo e raiva, pois, também afirmou, achava mais difícil aceitar com os negros o que de bom grado aceita com os brancos, principalmente com a Igreja Católica a que pertence.

Essa força de imaginários impostos é a mesma que incita certas mulheres negras a desvalorizarem os seus próprios cabelos, a fim de entrar na ditadura da beleza imposta, ou seja, aquela que sempre evoca a mulher branca. O subconsciente dessas mulheres fará com que elas digam que não rejeitam os seus cabelos, que a peruca economiza tempo, é eficiente e que também há mulheres brancas que a usam.

Que assim seja. E o que diríamos sobre a mulher negra que remove a superfície natural da sua própria pele com produtos tóxicos para ficar mais clara (isto é, para ter a cor da pele imposta que dizem ser normal!)? Isso também é prático? Sim, responder-meiam também, já que muitos homens negros ainda confundem pele clara com beleza, que todas as músicas de sucesso e os clipes que as acompanham falam apenas de mulatas e brancas e alguns artistas até cantam «Escuro Nao!», para fazer uma brincadeira que consideram de bom gosto e benéfica para um povo em crise de identidade.

Têm razão todas essas mulheres que diriam isso. Porque para salvar a mulher negra, devemos também salvar o homem negro e é só assim que poderemos salvar a criança negra que rejeita uma boneca que se parece com ela. E é assim que salvaremos um povo inteiro. O imaginário é uma função central da psique humana. Criamos imaginários para orientar a representação do mundo e da vida, e isso é feito através de imagens, representações, histórias e mitos mais ou menos distantes da verdade.

A produção de mitos responde à necessidade de um grupo criar os seus próprios valores numa história que põe o mundo numa narrativa coerente. Este grupo também pode impor os seus valores a outros, para os dominar, como foi o caso dos africanos pelos europeus. Assim, sendo o imaginário humano permitido pelo simbólico, não deveriam artistas e intelectuais dos países colonizados considerar a reconstrução da sua identidade essencial por ter sido deliberadamente destruída por invasões estrangeiras? Não são eles chamados à consciência, uma vez que apenas a consciência libertadora pode alargar o lugar minorado que a existência dos povos dos seus países têm na História hoje? Por exemplo, se esse trabalho de consciência tivesse sido iniciado desde a Independência de Angola, na música de Eduardo Paim, «Rosa Baila», lançada nos anos 90, o imaginário transmitido no clipe não nos faria evocar uma mulher branca (que dança no clipe), e uma mente crítica até se perguntaria sobre a sua utilidade nessas imagens.

Porque a música diz que ela tem o corpo mais bonito já visto, que ela é a mais bonita e dança melhor que todas as mulheres do mundo, ao ponto de surpreender os grandes dançarinos dos anos 60, o que deixava todo mundo louco de admiração por ela! Só que a Rosa não faz mais nada neste clipe, excepto agitar o seu longo vestido e mostrar um sorriso sedutor que lembra a Eva segurando a maçã que deu ao Adão antes que Deus os expulse do Éden! Vemos acima de tudo que ela não sabe dançar! Então, porque é que ela foi escolhida para estar neste clipe, se não para mostrar que já era na época a referência da beleza nos imaginários impostos na Angola dos anos 90?

Para os maiores e mais talentosos músicos do mundo, que entenderam a sua responsabilidade como artistas, principalmente os que são oriundos de comunidades minoradas ou minoritárias, denegridas e sujadas, tomar uma posição é sempre um reflexo natural. Por exemplo, Michael Jackson, mesmo quando escolhia uma pessoa de pele muito clara para o seu clipe, sempre se referia ao universo dos imaginários afro-americanos.

É também o que vemos nos clipes de Freddie Mercury, George Michael, Madonna, Lady Gaga, Beyoncé, quando defendem a causa dos gays ou das mulheres. Isso é chamado de consciência, especialmente quando alguém é vítima de dominação e discriminação. Bem, isso também implica liberdade antes da vontade, obviamente… Na função primária da arte (tocar os sentidos, as emoções, intenções e o intelecto), existe a missão de moldar o mundo, portanto, criar imaginários.

Existe então uma responsabilidade inegável, mesmo quando se afirma ser totalmente livre na sua criação e se defende esta liberdade. No resgate da nossa essência, das liberdades devidas aos povos negros, artistas e intelectuais têm um papel fundamental a assumir: devem ir além da arte pela arte!

Continuar a honrar as belezas de mulheres que não são negras não pode suscitar amor pela mulher negra e a menininha negra ainda não terá interesse em aceitar uma boneca que se pareça com ela. Continuar a criar para romances personagens que afirmem não entender a Negritude de Diop, porque para elas são os mundos de longe que são do seu interesse, é irresponsável e destrutor. E quando em certas linhas ainda se lê que a negros não se dá saberes mas se vende álcool e intrigas, vêm na mente questões filosóficas sobre o fundamento e motivação dos seus autores. Há uma irresponsabilidade manifesta que, acima de tudo, nunca foi questionada.

Estamos apenas no início do trabalho de desconstrução dos imaginários que foram construídos contra os negros e que ainda os afectam terrivelmente. Precisamos reparar isso, colocando os negros de volta no seu devido lugar no grande palco da História, como disse Aimé Césaire. Devemos reler a História e lavá-la de toda a aspereza do pensamento político prejudicial para os negros.

É um trabalho longo, de várias gerações, mas devemos começar. E o espaço que está mais atrasado nessa necessária labuta é o espaço lusófono. Nunca houve um renascimento negro, movimentos literários como Harlem Renaissance ou Negritude nunca puderam existir por razões que todos conhecemos. Pelo contrário, houve escolhas opostas, como a da Claridade (ou Os Claridosos) desenvolvida em Cabo Verde a partir da década de 1930, um movimento que defendia a exaltação da pele clara e valores europeus. Infelizmente, ainda temos que esperar para ter na lusofonia equivalentes de Kwame Anthony Appiah, Achille Mbembe, Wole Soyinka, Maryse Condé, Ta-Nehisi Coates. Mas tenho muita esperança no Brasil, ele vai falar e com muita força.

Este país dirá, como os artistas europeus brancos que criaram o Cristo élfico, que o Jesus Cristo deles, como o menino Jesus dos kimbanguistas, é negro e isso será justificado. Entretanto, o Brasil negro está a reunir e alimentarse dos nutrientes essenciais dos mundos negros. E os Afrobrasileiros mais competentes entenderam que o racismo e o assimilacionismo trazidos por portugueses e continuados pelos seus descendentes e outros europeus que ainda tomam conta do país esconderam deles as obras dos mais brilhantes pensadores e artistas negros.

Então eles decidiram pegá-las e traduzi-las eles mesmos.

Ricardo Vita

(Panafricanista,
afro-optimista
radicado em Paris, França.
É colunista do diário Público
(Portugal) e do diário Libération
(França). É cofundador do
instituto République et Diversité
que promove a diversidade em
França e é empresário)

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