O senhor Diogo Diogo

Fez ontem 20 anos o meu filho mais velho. Veio de Inglaterra a Portugal de propósito para estar com a família e os amigos. Esse simples facto expressa, sem margem para dúvidas, que a coragem abunda entre os mais novos, o que, por dedução simples, nos garante sem margem para erro, que o mundo está salvo, e tem futuro. Porquê?

Porque querer entrar num avião nos tempos da Covid-19 equivale em coragem a entrar numa casca de noz à vela e sem leme no século XVI para atravessar o oceano, é a mesma coisa que propalar a reforma teológica de Roterdão em plena capela Sistina no XVII; é melhor que pintar grafitis em navios corsários nos portos ingleses no século XVIII, mais bravo que exigir um Estado absolutista no século XIX e incomparavelmente superior a defender a proibição da Internet e das redes sociais no século XX.

O homem é valente e nestes tempos moles em que temos tudo à mão, não ter nenhum medo do que dizem os jornais e os políticos é mesmo o suprassumo da coragem. À maneira do século XXI o senhor DD é um guerreiro.

Também podíamos pensar que ele faz isto apenas porque é inconsciente ou pensa que é imortal, como nós nos pensávamos na idade dele, mas não.

Ele faz isso por uma coragem original que lhe nasce da educação. Ele está em Londres a viver e a estudar porque o que aprende lá é muito diferente daquilo que lhe aprenderia em Lisboa — melhor, porque o tempo que gasta a estudar é dirigido ao que ele precisa de fazer no futuro e não apenas ao que precisa de saber no presente. É por isso que, para ele, demonstrar obediência em relação aos mestres — como acontece em muitas universidades da capital Portuguesa — só para ter boas notas, é uma coisa tão disparatada como ter medo de apanhar um avião no meio da pandemia. Ele prefere o desafio ao empirismo, o desconhecido ao regular, o novo ao velho. Claro que a reputação da escola — King’s College de Londres — ajuda, porque, para arranjar emprego, “apenas” estudar lá, já é mais relevante que ter A a tudo numa universidade pequena. Mas não é só isso.

É nesta atitude diferente, feita mais de acção que de contemplação, que podemos encontrar a explicação da coragem que anima o senhor Diogo Diogo a viajar quando o mundo todo está fechado em casa.

Agora só temos de esperar que o ele acabe de estudar e entre na política. Porque, como ele próprio me disse um dia, sendo a política fundamental porque é “aquilo que nos separa do caos”, a cada dia que passa estamos cada vez mais precisados de um espírito assim.

José Manuel Diogo

error: Content is protected !!