“Moda não é para preguiçosos”

Estilista com dimensão internacional, Rui Lopes já participou em vários eventos internacionais. O interlocutor de OPAÍS considera que existe uma carência cada vez mais crescente de alfaiates e costureiros qualificados, como tal cresce o número de estilistas sem formação e, por essa razão, a moda actual não pode prosperar. Porém, com foco direccionado à moda, pode-se gerar riqueza para os angolanos e consequentemente de empregos. Contudo, defende a formação não só para quem vai trabalhar no sector como também para aqueles que a dirigem

Como caracteriza o estado actual da moda em Angola?

Quando um membro do nosso corpo está doente, o corpo inteiro fica doente, sofre. Portanto, com uma economia débil como a nossa não poderíamos esperar outro destino. Existe uma carência cada vez mais crescente de alfaiates e costureiros qualificados para trabalharem nos ateliês. Cresce o número de estilistas sem formação. Existem cada vez menos eventos em Angola e acentua -se a desunião entre os profissionais da moda. Cada vez mais nota-se o medo pela concorrência e o favoritismo ou conveniência em detrimento da competência. A moda declinou muito nos últimos cinco anos como consequência do saque e desvio dos dinheiros atribuídos à recuperação da indústria têxtil nacional.

O facto de no país não haver uma indústria têxtil, aliada à falta de formação, resulta em, na sua opinião, pouca qualidade do produto final dos nossos estilistas?

A formação não é só para aquele que vai trabalhar na indústria. Quem dirige a indústria têxtil também deve ter formação a respeito. Acredito que a indústria teria sempre a última palavra a dizer no que diz respeito à qualidade do produto final dos estilistas.

Quer explicar melhor?

Não é com matéria prima de pouca qualidade que se espera obter produtos de alta qualidade. A moda representa a terceira maior indústria do mundo. Portanto, falta visão nas pessoas que dirigem o país para perceber que além do petróleo e diamantes a indústria têxtil nacional poderia gerar riqueza para os angolanos e também milhares de empregos, assim como havia no tempo colonial.

O mundo está “fechado” face à pandemia Covid-19 e Angola é dependente do mercado exterior. De que forma afectou o trabalho dos estilistas em Angola e o seu em particular?

O trabalho dos estilistas angolanos não foi afectado pela Covid. Sempre vivemos dificuldades desde um botão, um fecho, linhas, tecidos etc. Não se compreende como até hoje o mercado informal continua a ter mais matéria-prima que o mercado formal. Até hoje, os carros em Cuba estão em movimento. Aqui as coisas também não pararam com a Covid-19. É preciso cada vez maior sabedoria e criatividade para contornar a situação. Quando não se tem uma bola jabulani joga se com uma bola de meia.

Que mercados enquanto profissional pretende atingir e o que falta?

Não descuro a possibilidade dos mercados europeus, asiáticos ou americanos. Contudo, a nossa realidade é bastante difícil por falta de indústria. Quando desfilei em 2011 na Inglaterra tinha uma empresa interessada nos meus trabalhos mas as roupas deviam ser produzidas cá. Desisti do contrato porque mesmo confeccionando no meu atelier um kilo de roupa para enviar pela DHL custava usd 125. Imagina!

Desistiu e não correu atrás?

Estou mais virado actualmente para o mercado africano. Muitos grandes estilistas africanos já andaram pelo mundo fora e as portas continuam fechadas.

Como é que surgiu a indicação para Embaixador da Catedral de Sal em Zipaquira na Colômbia? Continua a exercer o “Mandato”?

Fruto do meu trabalho em defesa dos valores e cultura africanas fui contactado pela senhora Belky Arizala uma afrodescendente colombiana, antiga modelo internacional, que, reconhecendo o meu desempenho na moda africana, endereçou-me o convite para ser o convidado especial do lançamento do África Fashion Week Colômbia 2017.

E qual a função desta senhora?

A senhora Belky é uma das Embaixadoras desta Catedral que é a 1ª Maravilha da Colômbia situada a 180 metros abaixo da terra e também embaixadora do UNICEF. Assim como eu, o jogador colombiano Falcão também é outro Embaixador desta grande atracção turística.

Continua o mandato desde 2017?

O meu mandato continua. O ano passado consegui convencer alguns estilistas africanos a participarem na 1ª Edição do referido evento. Este ano provavelmente não será possível devido a situação do Coronavirus.

Que conselhos pode dar a quem queira entrar para o mundo da moda?

Quem quiser entrar para o mundo da moda tem de ser diligente. Moda não é para preguiçosos. Precisa ser também argucioso. Tem de ser criativo, fazer as coisas com amor, dedicação. Não desistir nunca. Tem de acreditar nos seus sonhos, nas suas capacidades. Tem de estar preparado para enfrentar a concorrência, os bloqueios, as invejas, as lutas. Moda requer muito do nosso tempo. Tem de ter disponibilidade e nunca desistir quando as coisas não estiverem bem.

Que projectos pretende desenvolver, a curto, médio e longo prazos?

Pretendo dirigir a Casa ou o Atelier do Carnaval no Distrito do Sambizanga onde nasci. Foi um choque muito grande ver o rebaixamento dos grupos Carnavalescos do Sambizanga. É necessário dar emprego a essa juventude que se perde no álcool e nas drogas. O nosso Carnaval vai de mal a pior. Quero ajudar na melhoria e inovação das indumentárias dos grupos do meu distrito. Estavam mal representados no último Carnaval. Também sonho com uma Fashion School para dar formação aos futuros estilistas nacionais.

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