“Podemos perspectivar a possibilidade de uma crise económica global”

Elsa Cristina Vaz é economista e investigadora do Centro de Estudos e Formação Avançada em Gestão e Economia da Universidade de Évora, em Portugal. A docente universitária afirma nesta entrevista que as estatísticas económicas evidenciam a desaceleração do crescimento económico mundial na generalidade dos países mais afectados pela Covid-19. Elsa Vaz considera igualmente que este momento difícil pode conduzir os actuais líderes ao diálogo e permitir que sejam desenhadas formas de resposta coordenada às crises comuns.

Qual é o cenário económico pós-pandemia Covid-19?

Não creio que possamos falar, neste momento, num único cenário pós-pandemia Covid- 19. Esta pandemia, que começou por ser um choque nacional, chinês, rapidamente se tornou um choque regional, asiático, e depois num choque verdadeiramente global, dado que todos os continentes estão a ser afectados de forma significativa. Por outro lado, é importante não esquecer que o impacto desta pandemia depende da capacidade de reacção de um conjunto muito grande de agentes económicos, que se revela muito diferente nos diversos países. Não obstante esta incerteza, os cenários a desenhar deverão todos eles considerar a possibilidade de cada um dos agentes poder efectivamente aprender com esta situação. Com isto, quero dizer que as empresas estão a aprender que as cadeias globais de valor podem ser quebradas de forma abrupta e inesperada, que as instituições financeiras ou reguladoras deverão incluir novos parâmetros na avaliação de risco, e que os cidadãos também estão a perceber que outros países podem reagir de forma xenófoba. Com estas aprendizagens inevitavelmente os seus comportamentos irão ser ajustados no futuro.

A Covid-19 vai fazer com que muitos governos adoptem políticas proteccionistas?

Depois de 70 anos de abertura progressiva às relações internacionais cada vez mais liberais (recordemos que no passado dia 9 de Maio comemoraram-se os 70 anos de declaração de Schumann, que conduziu a Europa ao contexto actual) a adopção de políticas proteccionistas continua a ser uma possibilidade se o medo assumir dimensões verdadeiramente grandes. Este medo será certamente dependente da dimensão e da persistência dos danos económicos (e políticos) que esta pandemia provoque.

Assim, podemos perspectivar a possibilidade de uma crise económica completamente global e acompanhada do retrocesso no processo de globalização. No entanto, também podemos almejar que esta crise conduza os actuais líderes ao diálogo e desenhem formas de resposta coordenada às crises comuns.

A pandemia poderá trazer recessão?

Acredito que sim, ainda que a sua dimensão não seja semelhante nas diferentes economias nem a persistências dos seus efeitos. As estatísticas económicas já evidenciam a desaceleração do crescimento económico na generalidade dos países mais afectados. Esta evolução mostra o grau de dependência das diferentes economias que está especialmente associado aos fluxos comerciais actuais. A globalização recente incentivou a segmentação da produção e o crescimento das cadeias globais de valor, tanto em número de agentes como também em termos geográficos. Isto significa que é agora muito mais fácil que um choque específico num determinado sector possa repercutir-se em muitos outros sectores industriais. Além disso, as estratégias de contenção da doença com confinamento social, a substituição do trabalho presencial pelo teletrabalho, as restrições nos transportes ou o encerramento das fronteiras levou à estagnação de muitas empresas que tiveram que manter muitos dos seus custos sem conseguir manter os seus rendimentos. Se em alguns sectores podemos pensar que será possível recuperar estas perdas, noutros elas nunca serão recuperadas e isso poderá levar a falências e insolvências.

A actuação da União Europeia começou por ser dúbia. O primeiro- ministro português, António Costa, criticou a actuação do governante holandês Wopke Hoekstra que se mostrou contra o apoio aos países mais afectados pela pandemia.

A actuação das Instituições Europeias tem sido considerada pouco visível, mas não foi inexistente. Numa estrutura pesada como é a União Europeia é normalmente demorada a obtenção de consensos entre tantos países, que embora tenham muitos interesses comuns, também têm muitos interesses específicos. A Comissão Europeia começou por actuar dando ênfase à saúde dos cidadãos e nesse sentido foram tomadas medidas para assegurar a continuidade dos serviços de transporte de carga que permitissem o funcionamento do mercado interno europeu e que respondessem de forma eficaz à actual crise de saúde pública. Foram também restringidas temporariamente as viagens não essenciais, definidas as orientações para as questões de asilo e procedimentos de regresso e reinstalação. Definiram-se igualmente as regras a aplicar pelos Estados membros como os controlos sanitários nas fronteiras ou o aconselhamento dos viajantes.

A Covid-19 vai abrir portas à mutualização da dívida na União Europeia?

A questão da mutualização da dívida é considerada por muitos economistas um instrumento fundamental para o relançamento das economias e para a diminuição do desemprego e da pobreza, mas não é o único. Alguns passos estão a ser dados para definir uma resposta mais robusta, onde podemos incluir a flexibilização das regras no âmbito do Pacto de Estabilidade e Crescimento, a incorporação no orçamento da Comissão Europeia de iniciativas de investimento de resposta directa à crise (propostas estas já aprovadas pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho mas ainda não foram assumidas pela Comissão Europeia) e ainda a possibilidade de aplicação do Fundo de Solidariedade também nesta crise ou as medidas de política monetária focadas na liquidez das economias. Para combater o impacto da Covid-19 na economia do euro, o Banco Central Europeu anunciou novas medidas focadas na liquidez dos bancos, incluindo novos empréstimos e melhores condições para os existentes. Christine Lagarde – Presidente do Banco Central Europeu -, alerta que a economia da Zona Euro pode contrair 5% a 12% este ano.

Que leitura é que faz destas novas medidas adoptadas na União Europeia para combater o impacto da Covid-19?

A adopção de medidas facilitadoras da liquidez na economia é muito importante e a sua disponibilização rápida é urgente. De facto, importa que os bancos nacionais sejam capazes de responder às necessidades das empresas, em especial das pequenas e médias empresas, que têm tido muita dificuldade em fazer face às suas despesas quando estão impossibilitadas de manter as suas receitas, devido às restrições que foram impostas como forma de conter o contágio pela população. Segundo a primeira estimativa do Eurostat, o Produto Interno Bruto – PIB da Zona Euro caiu 3,8% entre Janeiro e Março deste ano em relação ao trimestre anterior.

Que impacto tem esta queda na economia da Zona Euro?

O problema da redução do crescimento não é apenas crítico para os países da Zona Euro. Efectivamente, todos os Estados membros estão fortemente dependentes do mercado único e os fluxos de bens e serviços reflectem a densidade das cadeias globais de valor existentes. No entanto, os países da Zona Euro não têm autonomia monetária ou cambial para responder ao problema do desemprego e da pobreza. Por esse motivo, especialmente alguns países com maiores fragilidades, poderão ter mais dificuldade em retomar o crescimento sem a coordenação em diferentes frentes por partes de todos os parceiros.

A economia dos Estados Unidos da América está a ressentir-se da pandemia Covi-19?

Neste momento a economia dos Estados Unidos é uma das economias do hemisfério norte que mais intensamente está a sofrer em termos de saúde pública, no número de pessoas infetadas e no número de mortes por Covid- 19. Considerando as previsões do Fundo Monetário Internacional do passado mês de Abril, podemos confirmar que a Itália, a França, a Alemanha ou o Rei no Unido poderão ter uma redução do PIB superior à redução nos EUA, que se espera ser de -5,9%. Podemos também verificar que se espera que o défice comercial americano (-2,634% do PIB) seja inferior ao do Reino Unido e do Canadá. No entanto, o impacto na taxa de desemprego é dos mais graves, já que embora se espere ter uma taxa de desemprego igual à da França será a economia que terá o maior agravamento, passando de 3,7% para 10,4% da população activa.

As medidas adoptadas pelo Presidente norte-americano Donald Trump para salvar a economia foram as mais adequadas?

É evidente que a Administração americana pretende que as empresas retomem o mais rápido possível a sua actividade de forma a minimizar os efeitos no crescimento económico, na balança comercial, e indirectamente no nível do desemprego. No entanto, tal como muito economistas afirmam trata-se de uma estratégia muito arriscada porque o número de casos de infecção poderá crescer de forma ainda menos controlada. Este facto é tanto mais grave quanto menos funcional é o sistema de saúde pública americano e quando a pandemia deixar de estar nas primeiras páginas, esperamos todos que a sociedade perceba não só as fragilidades das suas instituições como a incapacidade dos seus governos em lidar com a situação. A economia portuguesa deverá recuar quase 6,8% este ano, segundo a previsão da Comissão Europeia, o que confirma a pior recessão desde o 25 de Abril de 1974.

Como é que Portugal está a lidar com a pandemia?

Portugal tem seguido as recomendações europeias e tem conseguido que a população mostre ainda confiar nas autoridades, o que se revela pela evolução cordial da situação de confinamento. Inevitavelmente, porque Portugal é uma economia muito dependente dos seus parceiros no mercado único, e especialmente alguns dos que têm vivido maiores pressões por parte desta pandemia como a Espanha, a Alemanha, a Itália ou o Reino Unido (na prática as regras do mercado único ainda se aplicam), a sua actividade está a ser influenciada não apenas pelo impacto directo da doença no país assim como com a redução da oferta e da procura nesses parceiros.

Salomão Abílio

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