Criança nasce com má-formação congénita e fica em estado crítico após cirurgia

A pequena Dádiva nasceu com o ânus fechado e a equipa médica entregou a criança aos pais sem que estes dessem conta da deformação. A criança foi submetida a duas intervenções cirúrgicas, mas os progenitores alegam estar entre a vida e a morte por alegado atendimento desumano

Horas depois de chegarem à casa quando a mãe decidiu trocar a fralda de Dádiva, notou que a filha não tinha o ânus e de imediato levaram-na de volta ao Hospital dos Cajueiros, onde a mesma tinha nascido, a 6 de Maio (Quarta-feira).

A equipa que os recebeu transferiu- os ao Hospital Pediátrico David Bernadino, onde chegaram por volta das 18 horas de Quinta-feira, mas, segundo o pai, Correia Júnior, só por volta das 3h da manhã do dia seguinte é que foi atendida e submetida a uma intervenção cirúrgica. O desespero começou a tomar conta da família quatro dias depois, quando a criança apareceu com os intestinos fora do abdómen após ser transferida da UTI para sala de Neonatalologia.

“A minha esposa, quando viu isso, não se conteve, porque, apesar de ter 32 anos, é mãe pela primeira vez. Pediu o auxílio das enfermeiras para meter a fralda na criança, porque com os intestinos de fora, qualquer mãe se assustaria, mas elas reagiram mal e perguntaram se tinham que ser elas a ensinar uma mãe a colocar fraldas”, frisou.

Em declarações a OPAÍS, Correia Júnior disse que foram outros três médicos da mesma instituição que, deparando-se com a recém-nascida questionaram como é que ela tinha saído da UTI para a Neonatalogia naquele estado, tendo-se, de seguida, orientado o seu regresso ao bloco operatório.

Com a nova cirurgia de correção, os pais da criança começaram a levantar dúvidas e solicitaram o parecer de outros médicos de fora da instituição, alguns dos quais terão reprovado o procedimento.

Correia diz que o estado de Dádiva vai piorando a cada dia que passa e teme que o pior venha a acontecer a qualquer momento, pois a informação que têm recebido a partir da pediatria não é das melhores.

Acrescenta que desde a segunda cirurgia a situação da criança está a cada dia que passa a decair, apresenta-se pálida e quase já não faz movimentos.

Em função disso, chegaram a solicitar a intervenção do director Provincial da Saúde de Luanda, que os terá encaminhado ao responsável máximo da pediatria no sentido de se prestar atenção redobrada, porém, sem efeito.

“A mãe está no desespero e já não consegue cuidar da criança. A minha cunhada, que a substitui, disse que a criança está mesmo mal. Infelizmente, estamos nesta situação da Covid-19, porque, senão, faríamos de tudo para levar a criança para a Namíbia”, referiu.

“Há condições, mas falta humanismo”

Para Correia Júnior, o que falta é o atendimento humanizado no nosso sistema de saúde, porque entende que a nível de equipamentos e outras condições se consegue dar resposta, pelo menos nos casos urgentes.

Para os familiares de Dádiva, não se percebe como uma equipa médica deixa uma criança sair da UTI com os órgãos internos de fora e alega ser um procedimento padrão.

“As condições são boas e eu não tenho nada a contrariar. O problema está no atendimento, está no humanismo”, acrescenta que o problema não está no e equipamento e nas condições das unidades sanitárias, mas a forma como os pacientes são atendidos pelos médicos e as restantes equipas de saúde.

Médico diz que procedimento cirúrgico é normal

O médico cirurgião Pedro da Rosa disse que quando a criança nasce com ânus imperfurado o procedimento clínico a que foi submetida é o normal. “O que se faz na cirurgia é a abertura do ânus que estava fechado e como é uma ferida, faz-se uma exteriorização do intestino e as fezes passam a ser depositadas num saco enquanto a ferida no ânus está a cicatrizar”, explicou.

Pedro da Rosa disse ainda que este processo, até a ferida ficar cicatrizada, leva, no geral, duas semanas, período em que o paciente é levado novamente ao bloco e faz-se a devolução dos intestinos que foram postos fora, procedimento clinicamente denominado de colostomia.

O especialista explicou que se foi detectado alguma anomalia pós cirúrgica é normal que os médicos tenham mandado de volta à UTI, para que a criança tivesse uma respiração normal, e é mandada novamente a uma enfermaria.

“Não é que tenha sido mal intervencionada, acontece, às vezes, por se tratar de uma recém- nascida. É normal”, disse.

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