Mais de 284 mil turistas entre nacionais e estrangeiros visitaram os museus em 2019

Os museus de Angola receberam 284 mil e 498 visitantes, entre nacionais e estrangeiros, um público composto maioritariamente por jovens em idade escolar. Com a entrada em vigor das taxas de cobranças para ingresso nestas instituições, a museóloga afecta ao Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente (MCTA), Soraia Santos, em entrevista exclusiva a OPAÍS, por ocasião do Dia Internacional dos Museus, que hoje, 18, se assinala, disse que tiveram os cuidados em fixar valores simbólicos para acesso aos museus, sendo que duas franjas estarão isentas de pagamento, designadamente, cidadãos dos 0 aos 12 anos e maiores de 60 anos

Soraia Santos proferiu que nesta sua nova jornada, entre as várias missões, pretende também, sempre que possível, conseguir apoios para alguns projectos ao nível dos museus. Nesta senda, teve como primeiro resultado, no âmbito das comemorações da efeméride (em que os museus encontram-se encerrados devido ao estado de emergência), o patrocínio de um software de gestão de bibliotecas, para todos os museus de Angola.

Em Angola existem cerca de 14 museus entre nacionais, regionais e locais. Qual é o estado actual destas instituições museológicas?

Em primeiro lugar é importante dizer que as nossas instituições museológicas são depositárias de um rico e diverso património histórico e cultural, e que é dever de todos conhecer, preservar, valorizar e divulgá-lo. De uma forma geral, os museus de Angola necessitam de melhorias nas suas infraestruturas, ou, em alguns casos, de novas instalações, desenhadas e pensadas de acordo com as normas específicas para os museus, para que eles possam desempenhar as funções que lhe estão associadas – adquirir, conservar, investigar, comunicar e expor o património material e imaterial que tem sob a sua responsabilidade.

Estamos a falar em organismos específicos?

Por se tratar de instituições com funções específicas, que implicam a constituição de equipas multidisciplinares, necessitam de quadros com formação especializada como, por exemplo, conservadores restauradores, museógrafos, museólogos, investigadores, isto para falar apenas das áreas directamente ligadas à museologia, mas existem outras dependendo do âmbito do museu, se é um museu de Antropologia vai precisar de antropólogos, de Arqueologia de arqueólogos e historiadores e assim por diante.

Em que estado estão os espólios nestes espaços?

A conservação dos acervos museológicos é uma preocupação transversal a todos os nossos museus. Precisamos de novas e equipadas reservas técnicas para um melhor acondicionamento e conservação das peças.

O processo de conservação tem tido êxitos?

Embora seja uma das áreas mais sensíveis nos nossos museus, tem-se feito um esforço muito grande para conservar o melhor possível as nossas colecções e devo agradecer aos directores e funcionários de todos os museus, pelo sentido de responsabilidade com que encaram este assunto.

Como funciona o leque de programas e espaços educativos nos museus, com o fim de melhorar e elucidar os visitantes sobre o real valor e importância do seu mosaico sócio-cultural?

Uma das mais importantes funções dos museus é, sem dúvida, a função educativa. Os projectos educativos de cada museu devem ser pensados e adequados ao seu público-alvo, são eles que permitem uma melhor e maior apreensão da mensagem que se pretende transmitir e, consequentemente, um maior envolvimento do público com os museus.

De que maneira é feita a programação destas actividades?

De uma forma geral, todos os museus programam as suas próprias actividades educativas. Elas passam, por exemplo, pelas visitas guiadas, pela programação de palestras sobre diversos temas dentro e fora dos museus, pela programação de exposições temporárias e itinerantes, pela criação de espaços que incentivam o gosto pela leitura aos mais novos, ou ainda, pela criação de atelieres que visam colocar o visitante em contacto com modos de “fazer”, considerados tradicionais, como é o caso da olaria ou da cestaria. Estas e outras actividades podem e devem ser pensadas e implementadas nos nossos museus.

Em média, com base nos relatórios, quantos visitantes recebem anualmente e quem mais procura pelos museus nacionais?

Em 2019, os museus de Angola receberam 266 mil e 399 visitantes nacionais e 18 mil e 099 estrangeiros, perfazendo um total de 284 mil e 498 visitantes. O público é maioritariamente escolar.

Com a entrada em vigor das taxas de cobrança para visitas, acredita que aumentará a procura, ou pelo contrário, irá afastar mais os visitantes?

Repare, em todo o mundo as entradas nos museus implicam o pagamento de ingressos. No caso de Angola, tivemos o cuidado de encontrar valores que consideramos simbólicos, sendo que há isenção de pagamento para visitantes, isso, dos 0 aos 12 anos e para visitantes com idade superior aos 60. Os visitantes com idades compreendidas entre os 13 aos 18 anos pagarão um valor, mas simbólico.

Os primeiros museus, de História Natural e do Dundo, nas províncias de Luanda e da Lunda-Norte, respectivamente, que surgiram antes mesmo da independência do país, foi para resgatar os valores sócio-culturais do país, ignorados pelos colonizadores?

Os primeiros museus, criados e fundados na era colonial, surgiram não para resgatar os valores culturais dos povos colonizados, pelo contrário, eles surgem como instituições que permitiam o estudo e um maior conhecimento da cultura local que era mal conhecida pelo colonizador e sempre, numa perspectiva de que se estava diante de uma cultura exótica e inferior à cultura portuguesa ou europeia.

E quando ocorre o início do resgate dos valores culturais do país, através destas instituições?

A missão de resgate dos valores culturais de Angola através dos museus dá-se após a independência. Actualmente, os nossos museus têm como função a preservação, valorização, o estudo e a divulgação da história e cultura angolana, contribuindo para a afirmação da identidade nacional, expressa na grande diversidade que nos caracteriza.

Como estão os museus, no âmbito da cooperação para troca de experiência entre países, de modo a inovar e dinamizar o seu funcionamento?

A cooperação internacional tem em vista, especialmente, a investigação científica e a formação de quadros. Esperamos poder contar com esses acordos para melhorar o sector, recorrendo à experiência e know how dos nossos parceiros internacionais. A conservação preventiva é uma acção diária e que, dentro das condições existentes, é da responsabilidade de cada museu.

Os artistas plásticos, em várias conversas tidas nas nossas reportagens, sobretudo neste jornal OPAÍS, reclamam a falta de um Museu de Artes, para coleccionar e preservar as suas obras. Essa questão suscita a vossa preocupação?

A criação de museus depende de condições específicas para o efeito, existência infra-estruturas adequadas, colecções e recursos humanos. A sustentabilidade dos projectos também deve ser tida em conta, bem como os benefícios que trará para a comunidade.

Mas pensam em criar um Museu de Artes com esta finalidade?

Pensar na criação de quaisquer museus implica termos primeiro que reunir todas estas condições. Se seria uma mais valia podermos contar com um Museu de Arte angolana? Sim. Seria. É um projecto no qual se pode pensar.

Foi directora do Museu Regional da Huíla no período de 2014 a 2020. Quais foram as dificuldades enfrentadas na altura, que métodos usou para resolvê-los e, igualmente, dar maior dinamismo ao espaço?

Fui directora do Museu Regional da Huíla no período de 2014 a 2020, não é possível resumir num parágrafo tudo o que fizemos durante esse período. Foi um grande desafio e uma honra enorme. Quando assumi a direcção daquele museu percebi que o museu tinha pouca expressão na comunidade. Então, resumindo, foi preciso organizá-lo, do ponto de vista técnico e administrativo, melhorar a sua imagem, conceber projectos educativos e de dinamização cultural, que nos permitissem sair do anonimato.

E as dificuldades?

Nos seis anos em que estive como directora do museu, a principal dificuldade que encontrei foi gerir a falta de recursos humanos (eramos apenas seis funcionários), mesmo assim, a equipa mostrou-se sempre à altura dos desafios e conseguimos tornar aquele museu numa referência na região. Implementamos imensos projectos educativos virados para a captação do público, bem como estratégias de comunicação externas que divulgaram todas as actividades de relevo que foram sendo realizadas, transformamos o museu num centro vivo de cultura, onde há espaço para as mais diversas manifestações culturais – teatro, poesia, espectáculos de dança, lançamento de obras literárias etc – ou seja, o museu abriu-se à comunidade.

E em termos orçamentais, como foi?

O orçamento que geria foi também uma das dificuldades encontradas, mas apesar de ser um orçamento baixo, foi possível fazer pequenas obras no edifício e, com isso, melhorar significativamente as condições de trabalho dos técnicos e, ao mesmo tempo, conferir maior dignidade ao espaço que, consequentemente, permitiu melhorar o nosso serviço ao público. Para os projectos mais ambiciosos tive a sorte de contar com o apoio de instituições como o Banco Económico que desde 2016 patrocinou projectos do museu, chegando também a ajudar, em 2019, com uma viatura para apoio aos projectos de investigação. Outras empresas locais, como a fábrica de água “Preciosa”, a Planasul, a Conser, a Logicpulse Angola, a Intercal e a Top Oferta nos apoiaram em diversos projectos e isso fez toda a diferença. Saio da direcção deste Museu com plena consciência que dei sempre o meu melhor e com espírito de dever cumprido.

Assume novas funções no ministério quais são os planos que têm acção para uma maior desenvoltura dos espaços no país?

Os museus de Angola têm, cada um, a sua própria direcção e é essa direcção que concebe os planos de acção para o seu museu ao longo do ano. A minha função junto dos museus é de coordenação e acompanhamento metodológico das acções levadas a cabo por cada museu. O objectivo é trabalharmos no sentido de formarmos uma equipa que partilhe experiências e conhecimentos. Vivendo na era digital e da comunicação, trabalharemos em estratégias de comunicação eficazes, que permitam um maior conhecimento dos museus por parte do público e a desmistificação de ideias que associam os museus a depósitos de velharias, mostrando que através de diversas acções de dinamização cultural podemos conferir aos espaços o dinamismo que a sociedade tanto reclama.

Então vai apoiar, efusivamente, os museus?

Sim. Vou encarregar-me também de, sempre que possível, conseguir apoios para alguns projectos dos nossos museus. A título de exemplo vamos receber, no âmbito das comemorações do dia internacional dos museus, o patrocínio de um software de gestão de bibliotecas, para todos os museus de Angola. O patrocínio é da empresa Logicpulse Angola que começará por instalar o referido software nos museus de Luanda e, faseadamente, nos restantes museus espalhados pelo país.

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