Fugitivo do genocídio no Ruanda viveu incógnito em Paris

“Ele não disse uma palavra”. O fugitivo do genocídio ruandês Felicien Kabuga, cuja prisão, no Sábado, pôs fim a 26 anos de fuga, era um homem idoso e frágil, que pouco falava aos vizinhos e que passeava quase todos os dias fora do seu apartamento, num subúrbio de Paris.

Kabuga, 84 anos, o homem mais procurado do Ruanda com uma recompensa de USD 5 milhões pela sua cabeça, vivia sob uma falsa identidade num prédio de cinco andares em Asnieres-sur-Seine com a ajuda dos seus filhos, segundo o Ministério da Justiça da França.

A Polícia odeteve-o no Sábado. “Eu via esse homem a sair, talvez uma vez por dia, sozinho ou com alguém”, disse Jean-Yves Breneol, 72 anos, morador do mesmo quarteirão onde Kabuga vivia. “Ele não dizia uma palavra, nada.”

Breneol disse que achava que Kabuga poderia ter vivido no prédio por quatro ou cinco anos.

“Não sabíamos o nome dele, nada”, continuou ele.

Não se sabe como ou quando Kabuga entrou na França.

Mas os vizinhos disseram que ficaram surpresos ao saber que um homem procurado por um tribunal das Nações Unidas sob sete acusações criminais, incluindo genocídio e incitação ao cometimento de genocídio, tudo em relação ao genocídio de 1994, no Ruanda, vivia entre eles.

“O que aconteceu é chocante”, disse um segundo morador do prédio que se identificou apenas como Jean-Guillaume, que acrescentou que Kabuga parecia fraco, “Ele era um homem velho, muito velho. Ele estava doente.”

A Reuters não obteve nenhuma reacção ou comentário público feito por Kabuga ao longo dos anos sobre as acusações. Desconhece-se que ele tenha uum advogado na França.

Kabuga está agora encarcerado na prisão de La Sante, no centro de Paris.

Ao pé de uma imponente parede externa de pedra e repleta de câmaras de segurança, um brasão na tricolor da bandeira nacional francesa fica ao lado de um quiosque de recepção.

DINHEIRO, MÁQUINAS

A prisão de Kabuga marcou o fim de uma caçada de mais de duas décadas que abrangeu a África e a Europa.

Empresário hutu, ele é acusado de criar e fazer contribuições para um fundo para pagar as milícias juvenis que massacrariam cerca de 800.000 tutsis e hutus moderados, além de importar um grande número de facções, de acordo com a acusação do tribunal da ONU.

Kabuga era sócio do presidente Juvenal Habyarimana, cuja morte num avião abatido sobre Kigali, capital do Ruanda, em 1994, acendeu as profundas tensões étnicas entre os hutus e os tutsis. Duas das suas filhas casaram na família de Habyarimana, de acordo com uma acusação emendada de 2004.

Um dos homens mais ricos do Ruanda, antes do genocídio, Kabuga controlava muitas das plantações e fábricas de café e chá da nação da África Central. Ele também era co-proprietário da “Radio Television Milles Collines”, que transmitia mensagens anti-tutsis que alimentavam o ódio étnico.

As cicatrizes do genocídio permanecem profundamente gravadas na psique ruandesa.

“Essas são, realmente, boas notícias que alguém que planeou e financiou o genocídio, estava escondido há muito tempo e agora é preso. É uma boa notícia para todos, especialmente para os sobreviventes ”, disse Valerie Mukabayire, líder da AVEGA, um grupo de mulheres sobreviventes ao genocídio.

Mukabayire, 64, disse que perdeu membros da família, incluindo o marido. O grupo de sobreviventes tem pouco mais de 19 mil membros.

“Estávamos preocupados que a idade avançada de Kabuga impedisse a justiça, mas agora estamos felizes por ele ser preso”, disse ela à Reuters por telefone.

A prisão de Kabuga abre caminho para que ele seja apresentado ao Tribunal de Apelação de Paris e depois transferido para a custódia do Tribunal Internacional, sediado em Haia, Holanda, e Arusha, na Tanzânia.

O Tribunal Penal Internacional para o Ruanda (ICTR) foi estabelecido pelo Conselho de Segurança da ONU e encerrado em 2015. O Mecanismo Residual Internacional para Tribunais Penais está agora encarregue de desempenhar algumas funções antes acometidas ao ICTR e pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia.

O ICTR estava no centro dos esforços para estabelecer novos padrões na justiça internacional, embora o presidente do Ruanda, Paul Kagame, tenha dito que era muito lento e ineficiente. Alguns críticos disseram que ele estava muito focado em processar hutus.

“Para a Justiça internacional, a prisão de Kabuga demonstra que podemos ter sucesso quando contarmos com o apoio da comunidade internacional”, afirmou o procurador- chefe do mecanismo, Serge Brammertz, em comunicado.

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