Funerais com controlo cerrado em época de Covid-19

Enterrar os mortos, mais do que um dever cívico e cultural, representa um acto de humanismo, porém, em época de prevenção e combate à Covid-19 há cuidados a ter, porque o risco está sempre à espreita. Nos cemitérios, como prevenção, só são permitidas até 50 pessoas para presenciar cada sepultamento

Imaculada da Conceição transpôs o portão da residência do Zango 3 onde decorria o óbito de Victoriano Alves de Castro Neto, um dos enfermeiros mais conhecidos do Rangel, pela quantidade de pessoas que salvou durante mais de duas décadas no posto médico por si criado.

Tio Castro, como era carinhosamente tratado, falecera no dia 9 do corrente mês, depois de um longo período a lutar pela sua própria vida, mas desta vez não conseguiu sagrar-se vencedor. A morte venceu o homem da bata branca a quem várias famílias dos bairros da Precol, do CTT, das Comissões do Rangel e do Cazenga, bem como do Adriano Moreira entregaram vezes sem conta as suas vidas e foram salvos.

O Rangel estava em óbito numa época de isolamento social. Embora não conste entre os municípios onde se registaram casos de Covid- 19, manifestar a solidariedade à moda africana por estes dias se transformou num perigo.

Mal a viúva, Maria Leonor, médica, a viu, desatou aos prantos. Era a sua amiga de infância e conhecia a história do casal. O sentimento de irmandade ante a dor falou mais alto, deixaram de lado a regra de distanciamento físico e abraçaram-se demoradamente. Tempo mais do que o suficiente para a transmissão do novo Coronavírus, que até à noite de Quarta-feira havia infectado 48 angolanos, dos quais dois haviam morrido, 17 recuperado e 29 estavam internados em unidades sanitárias de referência.

Este vírus que levou à instalação de cerca sanitária ao bairro Cassenda, no distrito urbano da Maianga, ao Futungo e ao Hoji ya Henda, limitando a circulação de mais de 500 pessoas.

“Naquele momento não nos preocupamos com a Covid-19”, desabafou, a OPAÍS, Imaculada, enfermeira.

Na Quarta-feira, centenas de pessoas que foram salvas no seu posto médico compareceram no cemitério do Benfica para render-lhe a última homenagem e manifestar o seu apoio à família enlutada. Na porta da entrada principal deste campo santo foram informados de que só os membros da família poderiam entrar para acompanhar o sepultamento. Entre estes também haveria uma limitação: não passariam de 40.

Quem também teve de lidar com uma situação semelhante é a família Manuel Francisco Miguel, de 77 anos, que foi sepultado na primeira fase do estado de emergência.

Sepultamento com vigilância reforçada

Conceição Miguel, uma das filhas, contou, a OPAÍS, que no dia do funeral, 1 de Maio, as pessoas procuraram cumprir integralmente o estabelecido pelas autoridades como medidas de prevenção. Não alugaram transportes colectivos para apoiar o funeral e a cerimónia religiosa no cemitério ficou restringida somente aos membros da família.

“A maioria das pessoas optaram por permanecer na casa do óbito. Ao cemitério foram somente as pessoas que têm carro próprio, mais num número bastante reduzido”, frisou.

Disse terem constatado uma organização jamais vista no cemitério da Camama na manhã do dia 1 de Maio do corrente ano, durante o funeral.

À semelhança do que acontece no cemitério do Benfica, a entrada é fiscalizada ao detalhe. Primeiro, os portões se abrem para permitir a entrada das viaturas transportando urnas. Após transporem os portões, os mesmos são encerrados e é aberta a porta pequena.

As pessoas são autorizadas a entrar uma a uma, na medida em que vão sendo contadas. “Neste quesito não tivemos dificuldades, porque foram apenas 20 as pessoas que nos acompanharam ao funeral. As restantes ficaram em casa”, frisou.

Foi justamente na residência onde decorria o óbito de Manuel Miguel onde aconteceu a maioria das violações às regras de prevenção da Covid-19.

Conceição Miguel confessa que cederam à tentação de manifestação de afectos, abraçando e apertando as mãos de algumas das pessoas próximas que procuravam confortá-los no momento de dor e luto. “Não conseguimos resistir quando vimos pessoas que nos são muito próximas, como os nossos parentes. A outras nos limitamos a saudar do jeito que mandam as regras, com o cotovelo ou os pés. Nada se “cule” (saudações com os punhos cerrados)”, desabafou.

Conta que, apesar de nos dias de óbito muitas pessoas se terem limitado a manifestar a solidariedade à distância por estarem a cumprir o isolamento social, houve quem aparecesse no local. Principalmente os familiares e amigos pessoais do seu progenitor.

Os cuidados foram extensivos até às rezas direccionadas aos fiéis defuntos. Os membros dos grupos religiosos de Conceição Miguel tiveram que sujeitar-se a uma dinâmica diferente da habitual para poderem fazer as orações. Neste caso, compareciam em número bastante limitado.

Quatro dias depois do funeral a família se dispersou. Os filhos de Francisco Miguel, de 77 anos, continuam até hoje a tentar aprender a lidar com a ausência do patriarca da família.

“Os mortos vivem connosco e nos acompanham”

Afirma o antropólogo Eduardo Patrício, em entrevista a OPAÍS, que apoia as medidas sanitárias implementadas pelo Executivo com vista a prevenir e combater a Covid-19, apesar de terem implicações na essência da africanidade.

Esclareceu que está de acordo por visarem salvaguardar o bem maior é que a vida das pessoas, porém, reconhece que afastam, até certo ponto, as pessoas dos seus entes.

Em seu entender, por fazerem parte do ADN do africano a aproximação, o aconchego e o consolo, existe uma certa resistência por parte de algumas pessoas ao acatamento das medidas de contenção do novo Coronavírus.

“Para os africanos, os mortos não morrem como percebem os europeus. Nós, os intelectuais, até podemos negar, mas estamos conscientes de que os mortos vivem connosco e nos acompanham”, frisou.

Acrescentou de seguida que “para os africanos os mortos continuam a viver nas suas mentes e os acompanham no dia-adia, razão por que devem merecer o melhor descanso possível”.

O antropólogo explicou que o óbito faz parte das três celebrações mais importantes para os africanos, a par do nascimento e do casamento.

Descreveu a morte como o culminar de uma carreira do indivíduo na terra, de tal forma que quando desaparece um ente, para os africanos, este suplanta todos os outros entes viventes. O desaparecido torna-se merecedor das melhores devoções.

“Ele passa a ter uma importância considerável na vida dos vivos, de tal forma que se torna intercessor do vivo lá onde foi”, frisou, ressaltando que intercedem para o sucesso dos vivos na saúde e na vida profissional, entre outros.

Segundo o nosso interlocutor, é por esta razão que é uma obrigação moral para os africanos bantu acompanhar o seu ente até à sua última morada.

Comparando com o que está a acontecer em outras partes do mundo, onde os restos mortais de milhares de vítimas da Covid- 19 estão a ser cremados ou jogados em valas comuns, Eduardo Patrício alerta que esta prática não pode ser aplicada em África. “É através do enterro condigno que cada africano dá ao seu ente que os vivos se vão sentir em paz espiritual”, frisou.

Declarou que a cremação também é outra forma de tratamento do corpo a ser excluída, alegando que “em África o morto ainda vive”. Pelo que, do seu ponto de vista, para o africano, cremar significa aceitar um sofrimento de alguém que ainda vive. “Para o africano, a pior coisa que pode ocorrer é o desprezo pelo cadáver”, rematou.

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