“Alívio das restrições trará altos índices de contaminação comunitária”

Euclides Sacomboio, doutorado em Ciências de Saúde com enfâse em Saúde e Biologia Molecular, declarou que com o alívio das medidas de restrições previstas no estado de emergência tem plena certeza de que há maior probabilidade de o país ter altos índices de contaminação comunitária de Covod-19

Euclides Sacomboio diz que se se aliviar as medidas em vigor com o estado de emergência em Angola, tem a “certeza de que as possibilidades de termos altos índices de contaminação comunitária são muito grandes, porque as pessoas agora vão se juntar”. Isso ocorrerá, apesar de as autoridades terem alertado as pessoas sobre o perigo do abraço e do beijo, por exemplo, o que pode ser um co-factor para aumentar a contaminação na população em geral.

Em entrevista exclusiva a OPAÍS, após ter ministrado uma palestra sobre “o novo Coronavírus e os diagnósticos laboratoriais”, promovida pelo Centro de Imprensa Aníbal de Melo, salientou que o primeiro estado de emergência foi o princípio, algo que ninguém conhecia, mas que deu certo, tal como o segundo.

Em seu entender, no terceiro se devia abrir as outras províncias, mas manter as medidas que vigoravam em Luanda nos anteriores períodos do estado de emergência. “Podíamos pensar na economia de outras províncias, mas não aqui, em Luanda, por ser o epicentro da doença. Então, se todo o mundo estivesse em casa, nós teríamos reduzido as possibilidades de surgirem os “Casos 26 e 31” que contaminaram várias pessoas”, disse.

Em relação aos contactos directos do Caso 31, o especialista em biologia molecular salientou que ainda se está a tratar de pessoas que convivem com ele e não daqueles que atendeu no período em que abriu o seu estabelecimento comercial. Provavelmente, todos esses que deram positivo e atenderam clientes vindos de diversas partes de Luanda e, quiçá, do país.

Diz que a única forma de controlar a doença é voltar a fechar tudo e manter toda a gente em casa. E, por outro lado, aqueles que tiveram contactos com casos confirmados lhes deve ser feita a colheita de amostras e fazer-se, sucessivamente, o diagnóstico de todas as pessoas que provavelmente se expuseram à Covid-19.

Euclides Sacomboio é de opinião que se o Executivo decidir prolongar o estado de emergência, deverá manter a primeira forma, ou de nada adiantará, enquanto não se tiver um controlo rigoroso da infecção pelo menos na província de Luanda. Salientou que os danos da infecção, em termos económicos, serão muito maiores.

“Como disse, eu não conto o terceiro e o quarto estado de emergência. Para mim em termos de epidemiologia não contam. Caso se implementar, para mim vai ser o terceiro, mas tem de ser rigoroso”, frisou. Acrescentou de seguida que “tem de ser muito mais assertivo do que os outros dois. Esse estado de emergência não teve nenhuma influência. Era mesma coisa que abrir tudo”.

Estar na presença de infecção comunitária, sem saber

Euclides Sacomboio esclareceu ainda que quando se fala de infecção comunitária, epidemiologicamente se está a referir a um indivíduo que não viajou a um país endémico e que acaba infectado com o vírus.

Defende que as infecções locais são infecções comunitárias porque o indivíduo não viajou e se infectou no país. Entretanto, podia não conhecer quem o infectou.

“Muita gente que foi a esses mercados e teve contacto com o Caso 31 e seus contactos directos pode ter-se infectado. Vai ser local? não. Vai ser comunitária, porque nem sabe de onde se infectou”, explicou.

Por outro lado, o especialista realçou que os primeiros dois casos de óbito são indícios bastantes de que o vírus pode estar a circular, mas, felizmente, como não apresenta sinais e sintomas, as pessoas estão em casa sem saber que estão infectadas com a Covid-19.

“Podemos sim já estar na presença de infecção comunitária, mas nós é que não sabemos. O Estado só pode falar daquilo que consegue fazer diagnóstico, o que não consegue fica complicado”, frisou.

Euclides Sacomboio reafirmou que um dos maiores erros no controlo da Covid em Angola foi exactamente o que aconteceu com os os voos dos dias 17, 18 e 21, vindos de Portugal, “Além desses, aconteceram outros voos que tiveram o que foram ao serviço e acabavam de sair de Lisboa. Não passaram nem por controlo e nem pela aferição da temperatura como acontecia nos outros voos”, contou.

O especialista em biologia molecular disse que se subestimou a infecção e, lamentavelmente, o país está a pagar por isso. Reconheceu, porém, que ter os doentes internados é a melhor maneira para se ter o controlo dos casos.

Salientou que há países com pacientes assintomáticos ou sem sintomas e pacientes leves que estão a ser tratados em casa. “Estamos a tratar de forma institucional para evitar que essas pessoas propaguem a doença. Então, de alguma forma estamos muito mais cuidadosos do que alguns países da Europa e do mundo todo”, afirmou.

Uso da máscara só em caso de necessidade

Sobre a utilização de máscaras, explicou que estas devem ser usadas apenas quando se tem contacto de proximidade com outras pessoas.

Exemplificou que se a pessoa estiver num lugar, mesmo que seja num jardim, sozinho ou perto de algumas pessoas, pode retirar a máscara, com o cuidado. Sempre pelas fitas, para as mãos não manter contacto com o tecido da máscara, especialmente o interior.

“Não fazer nenhum contacto com o interior da máscara e quando voltar colocar deve ser também pelas fitas. Essa condição de usar a máscara é só mesmo caso necessite. Por exemplo, vou ter contacto de proximidade com as pessoas, aí eu preciso usar a máscara. Elas não são para serem usadas o dia todo. Estou sozinho e uso, isso aí até é perigoso”, aconselhou.

Especialista diz que exames de Covid-19 são seguros

Euclides Sacomboio garantiu que os exames da doença que têm sido feitos no país são fidedignos, do tipo PCR, e, recentemente, com a implementação do Genes Pex. Dois exames que identificam o gene do vírus causador da Covid-19.

“Estes exames têm uma fidelidade muito boa. Eles detectam o vírus no início da infecção, no segundo e terceiro dia e daí em diante, o resultado quando é positivo é porque o indivíduo tem a doença. Então, são testes bons e os resultados são fidedignos”, garantiu o especialista em biologia molecular.

Explicou que o seu problema é o tempo que levam para processar as amostras, mas com o Genes Pex esse tempo vai reduzir de dois ou três dias para cerca de 24 horas, assim, também se reduz o tempo de diagnóstico.

Questionado sobre o que terá falhado e possibilitou a entrada do vírus no país, apontou os últimos voos comerciais e o facto de os passageiros não terem sido submetidos a uma quarentena institucional.

“Se tivéssemos feito isso, teríamos resolvido esse problema de uma vez por todas. Todos os casos seriam importados e não teríamos infecção de transmissão local. Teríamos a população salvaguardada e todo o mundo a trabalhar, a fazer as suas actividades”, disse.

Considera ter sido um descuido ter deixado as pessoas saírem do aeroporto para as suas casas, pelo que, actualmente se está a pagar pelo mesmo, mas acredita que se encontrará mecanismos para reverter a situação.

Academia de Ciências da Saúde precisa de investimento e financiamento

Euclides Sacomboio, professor universitário, fez saber que a Academia de Ciências de Saúde precisa de investimento e financiamento para a investigação científica.

Do seu ponto de vista, é por lá onde devia passar tudo, sendo que as políticas de saúde, bem como as políticas de controlo de doenças, deviam ser discutidas com os académicos.

Defendeu ser na academia que se acompanha de forma diferenciada os aspectos sociais, porque o Governo pode ter uma visão, mas é uma visão governamental e não social, “uma vez que quem passa nas ruas é a sociedade em geral, inclusive os académicos”.

“Poderíamos dar suportes melhor ao Estado para tomar decisões. A academia em Angola precisa de ter efeito significativo. A academia no nosso país quase que morreu”, frisou.

Acrescentou de seguida que “não existe investigação. Os professores andam em debandada com salários magros. Quer dizer, academia desse jeito não tem como evoluir”.

Por outro lado, desabafou que um professor prefere dar aulas numa universidade privada ou num outro lugar do que dedicarse a uma investigação científica porque não vai ganhar nada com isso. Vai perder tempo e com os salários que recebe não tem uma condição de vida boa.

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