Luandina, rainha sem corona

A mãe Luandina é uma mulher feroz. Protetora dos filhos e cuidadora da família. Amiga dos vizinhos e vendedora de rua.

A maior parte das manhãs da sua vida Luandina se ergueu cedo, recalçando as chinelas da véspera e se atirando ao mercado em busca de cajú verde e fruta pão e giguba, que depois apresentava na quitanda dos seus sorrisos, na beira da estrada longa ou no centro da praça pequena, aos apetites do mundo que gira à volta do saber gostoso da sua voz.

Na maior parte dos finais de tarde, Luandina se sentou num banco improvisado ou no lancil da calçada, no bairro lento da cidade grande e, cansada da jornada, contava pelos seus dedos a alegria que a sorte lhe fazia levar para casa. E no caminho até ao lar, trocava descontraídas palavras com as amigas mais próximas. Sobre as notícias que transístor de pilhas soava, sobre os mujimbos da zunga, a cotação da quinguila e os sonhos mais poderosos da vida. O futuro dos seus filhos.

Quase todas as noites Luandina se achava cansada, mas feliz, porque tinha os dois pés mais perto do sonho de ver os seus filhos crescer. Mãe Luandina olhando ao redor, mirando o rosto dos meninos, na luz trémula da lâmpada amarelada se sentia emproada por ser mulher e mãe e amiga e colega e vizinha de outras mulheres que como ela desenhavam caminhos de manhã, contavam rotas à tarde e sonhavam futuros à noite.

Todas as vezes, mesmo na inclemência das chuvadas oou no calor abrasador do verão mais seco ela sempre deu negas aos problemas e caminho em frente. A cada dia se atirando de novo ao que a rua mais comprava. Ou fardos de fuba, ou pacotes de funjitos, apimentados de gindungo e mais tudo o que os fobados quisessem trocar por kumbu.

Até que um dia a notícia rebentou como uma grada escondida. Uma febre salteadora com nome de corona mas sem realeza invadiu a estradas e as praças e as feiras e os mercados e tudo parou. Dos caminhos desapareceram candongas e candongueiros, clientes e compinchas, monanganbés de todas as idades e feitios.

A rua ficou deserta por tempo indeterminável por causa desse Covid amalucado que parou tudo à sua volta a começar no mundo inteiro até ao final da nossa rua.

Desde esse dia que mamã Luandina desespera na manhã quieta, na tarde longa e na noite submersa. Desespera quieta sem poder remexer com vida, vendo os seus filhos e família emudecerem no silêncio matumbo do confinamento social.

O Coronavírus é muito mais severo para as mulheres que em Angola são as mais afetadas pela paragem das ruas. É preciso ajudar.

José Manuel Diogo

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