Ntondele! Nga sakidila Mwadyakimi

Era uma vez um Bakongo e uma Mbundu envolvidos na engajadora acção diasporiana.

Apesar de terem nascido no mesmo país, onde ambos ocuparam posições sociais de alguma relevância, o Bakongo e a Mbundu apenas se conheceram na capital da antiga potência colonizadora, na qual, por diferentes razões, eram parte activa da Diáspora Africana. Nascidos e criados em berços do metodismo, os dois eram anti-racistas epidérmicos, defensores permanentes da igualdade e justiça social, activistas culturais e pan-africanistas de raiz, tronco, ramo, folha, flor e fruto.

Corria o ano de 2012, quando o caminho político de ambos os junta e começa aí a longa caminhada de uma frutífera amizade, cimentada nos valores identitários africanos. Irreverentes de esquerda, com posicionamentos ideológicos idênticos, ambos eram sonhadores que utopicamente acreditavam que estaria nas suas mãos ajudar a mudar a Pátria comum.

Conheceram-se pouco depois de a Mbundu, com bastante estrondo, ter batido com a porta da militância do partido com o qual ambos tinham uma relação umbilical. Num gesto de grande sonoridade, alertara então: “O rei vai nu”, numa altura em que o medo imperava e a militância no hegemónico partido era também sinónimo de sobrevivência, incluindo afectivo-social.

Para o Bakongo, curioso, como os pesquisadores, homem do Conhecimento, das liberdades e da tolerância e afoito defensor do livre pensamento, esse episódio serve de chamariz para a aproximação dos dois. Impôs-se o desafio de perceber a “ousadia” da Mbundu cuja atitude levou à sua ostracização por parte dos representantes oficiais, oficiosos e acólitos da Pátria de ambos, naquele cantão diasporiano.

A partir daqui, o Bakongo estabelece contactos com a sempre exuberantemente africanizada Mbundu, defensora da sua panafricanidade muito para além da ideologia tout court incluindo também a indumentária, os amuletos, ritos e rituais. Começa aqui o caminho do entrosamento identitário entre a Mbundu e o Bakongo, a que se segue o auto empossamento do último como principal defensor da primeira, enfrentando com bravura e lealdade os bispos, as beatas e sacristãos dos representantes do establishment do já decrépito poder do seu país.

Faz tudo isso empunhando estandartes da solidariedade, da fraternidade e da convivência pacífica entre todos, mas mantendo-se nos órgãos do partido onde aprendera “a criar com os olhos secos”, porque continuava a acreditar que podia contribuir para a mudança, a partir de dentro.

Sempre frontal, directo e crítico, mesmo quando apaziguador, típico dos generais sem medo, usou todo o seu saber, inteligência, savoir-faire e apreciável currículo político para resfriar o ímpeto bélico desses bispos, beatas e sacristãos. Portadores de culturas complementares, o Bakongo e a Mbundu, cedo descobriram que as suas afinidades não eram só ideológicas, mas também programáticas.

E tertuliavam sobre a Pátria e a Mátria, o continente, queriam colocar o seu tijolo numa nova África, dona e senhora dos seus destinos em harmonia com todos os seus filhos, independentemente da latitude e longitude, e com a integração como realidade central. Ambos tinham África no centro das suas vidas, pareciam dois evangelizadores da integração, permanentemente a pregar como “afritudes” (africanos com atitude, no Luzia Moniz dizer de um artista diasporiano).

As afinidades programáticas do par vão sobressaindo, e a relação entre Mestre e discípula na Diáspora torna-se uma realidade inultrapassável, como se de Cheikh Anta Diop e Joseph Ki Zerbo se tratasse (no pan-africanismo também há vaidade!), quando a Mbundu se associa a outras diasporianas e pan africanamente criam uma organização de afirmação, resistência cultural e de reivindicação do lugar das africanas na sociedade que as acolhia.

E o Mestre, conhecedor e amante de África, das suas Gentes e da sua História, impregnado do espírito de Patrice Lumumba, de Kwame Nkrumah e de Ben Bella, lembrava à discípula; “não te esqueças de incluir também o Norte de África”. Constituído no último reduto do marxismo dentro da sua organização política, homem muito inteligente, de cultura universal, poliglota, bon vivant, cansado da doença e descontente com rumo do País e do partido, vai desabafando sobre o desencanto que o perturbava quando as mudanças na pátria não alteravam o rumo das coisas.

E eis que no horribilis 2020, no fatídico 17 de Maio, dez dias antes de a Mbundu celebrar mais um cacimbo, que seria mais um momento de celebração dessa amizade, chega a temida notícia: o Mestre partira para eternidade. Quis o destino, diriam Mestre e discípula, dois crentes agnósticos (contradição? Não, Filosofia!), que no momento da eterna partida do Bakongo, a Mbundu se encontrasse a cumprir e a representá-lo, também, num dos muitos ritos que celebravam em conjunto com outros africanos para os quais ele era simplesmente, o Tio Angolano, Tio Kiassekoka. OBRIGADA, MESTRE!

Luzia Moniz

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