100% Camurça: o filme mais tresloucado do ano

100% Camurça: o filme mais tresloucado do ano

Não há filmes para além das estrelas, por muito que Jean-Luc Godard acreditasse nisso. 100% Camurça nem quer tal feito, apenas acredita que uma sinopse doidivanas pode dar um resultado de cinema perto da insanidade mais literal.

O autor é Quentin Dupieux, cineasta uma carreira que em Portugal apenas se conhecia comercialmente Rubber – Pneu, pequeno delírio sobre um pneu de um camião que se torna assassino, coisa pequena comparada com o “nonsense” deste filme que inaugurou há um ano a Quinzena dos Realizadores de Cannes 2019.

Pois bem, Le Daim é o conto de um homem de quarenta e muitos anos que se apaixona pelo seu casaco de camurça. Casaco esse que a dada altura fala com ele e pede para ser o único casaco no mundo. A partir daí, o cowboy de camurça começa a despachar todos os casacos com os quais se cruza e os seus donos, muitas vezes filmados com uma manhosa câmara de vídeo. E nessas filmagens do assassino obcecado com camurça surge uma nova “persona”, o homem que faz filmes. Isto é, ter uma câmara é só por si um testamento para ser cineasta, nem que seja para rodar algo que se cruze com o cinema de terror e a comédia “slasher” involuntária.

Dupieux propõe esta insanidade ao espectador como um jogo de crianças, algo que se abre perante as mil e uma possibilidades de um brinquedo para um senhor em crise de meia-idade. Ao mesmo tempo, está a satirizar um cinema francês preso de movimentos no docudrama, mesmo quando 100% Camurça sobrevive bem apenas como objecto de delírio hilariante. Evidentemente que rimos mais pelo factor de o assassino de camurça ser interpretado por um Jean Dujardin a quebrar a sua aura de “star”.

O actor de O Artista está sem rede e brinca de forma explícita com o jogo de percepções que a sua imagem impõe – o excesso de peso e o franzir cabotino das sobrancelhas são marcas fortes que se tornam francamente divertidas, perfeitas para caricaturar uma ideia de decadência do estereótipo da masculinidade tóxica.

Se é um filme que foge à norma de um certo cinema francês contemporâneo, 100% Camurça, no seu desfilar de géneros, é um pacto com o espectador para uma inacreditável lavagem cerebral: o cinema como possibilidade da perversão fetichista mais hedionda. Ser feito com um humor selvagem e original é o feito de uma proposta que recusa classificações. Dupieux quererá ser levado a sério? Talvez não, mas a sua metáfora de armadilha lúdica seguramente atesta uma verdade muito bonita: fazer cinema (nem que seja com uma câmara que filme um casaco de camurça serial killer) é e será sempre uma loucura.

DN