Mais de um terço dos angolanos em extrema pobreza, diz estudo

Mais de um terço dos angolanos em extrema pobreza, diz estudo

Mais de 35 por cento dos angolanos ficaram privados de comida, água potável e assistência médica e medicamentosa no ano passado, de acordado com os dados do primeiro inquérito de opinião pública do Afrobarómetro em Angola, a que OPAÍS teve acesso.

Os inquiridores que participaram nesse estudo, realizado pela equipa do Afrobarómetro, liderada pelo Centro de Estudo de Opinião Pública Ovilongwa, entrevistaram 2.400 angolanos adultos, entre 27 de Novembro e 27 de Dezembro de 2019.

Para dissipar eventuais dúvidas, os pesquisadores Carlos Pacatolo e David Boio esclarecem, no aludido documento, a que o OPAÍS teve acesso, que o a quantidade de inquiridos serve como uma amostra que produz resultados nacionais, com uma margem de erro de mais ou menos dois pontos percentuais e um nível de confiança de 95%.

O estudo diz que, deste modo, a vulnerabilidade socioeconómica profunda em que se encontram muitos angolanos tem tornado extremamente penoso o cumprimento das medidas restritivas do estado de emergência implementadas no âmbito do combate à Covid-19.

Baseando-se nos dados recolhidos de Novembro a Dezembro do ano passado, os especialistas da Afrobarómetro em Angola afirmam que mais de um terço dos angolanos sofreu situações de pobreza extrema nos 12 meses anteriores.

“Ficando “muitas vezes” ou “sempre” privados de bens essenciais, incluindo salários ou outras formas de rendimento”, diz, acrescendo ainda que o mesmo aconteceu em relação ao combustível para cozinhar.

Esclarece que somente um em cada quatro (26%) teve regularmente salários ou outros rendimentos, sendo que a falta constante de ambos é mais comum nas áreas rurais (44%) do que nas cidades (38%) e é mais marcante na região Centro (44%).

“Pobreza moderada”

Aproximadamente 34 por cento dos angolanos experimentou a “pobreza moderada”. Sublinha-se que apenas 7% dos entrevistados relataram não ter vivido situações de escassez de bens essenciais.

Diz ainda que o longo período de estado de emergência, com isolamento social, que o país está a viver desde o final de Março, a fim de combater a propagação do novo Coronavírus, agudizou ainda mais a situação.

Esclarece que embora pareça haver um amplo acordo entre actores políticos e cidadãos de que tais medidas são necessárias, as descobertas acima mencionadas desafiam o Executivo e os parceiros de desenvolvimento a implementar estratégias que possibilitem mitigar o impacto do cumprimento das medidas sanitárias pelas famílias mais carenciadas.

De acordo com o estudo, 2018 foi o ano mais difícil para dois terços dos angolanos (67 %), por terem ficado sem comida suficiente pelo menos uma vez durante o ano de 2018, incluindo um em cada cinco (21%) que ficaram “muitas vezes” ou “sempre”. A falta de comida suficiente foi mais frequente nas regiões Leste (77%) e Centro Norte (70%).

A assistência médica e medicamentosa também foi um grande problema para os angolanos em 2018. O estudo diz que cerca de 8 (75%) em cada 10 angolanos ficaram sem assistência médica e medicamentosa suficiente, incluindo um terço (32%) que não tiveram atendimento médico “muitas vezes” ou “sempre”. “Destaca-se a região Leste, com quase metade (45%) dos moradores com falta de assistência médica e medicamentosa”.

De realçar que a Afrobarómetro é uma rede de pesquisa pan-africana e não-partidária que fornece dados quantitativos fiáveis sobre a vivência e avaliação dos africanos, da democracia, da governação e da qualidade de vida.

Diz o documento que foram realizadas sete rondas de pesquisas de opinião pública em 38 países, entre 1999 e 2018, sendo que a 8ª Ronda está prevista em 35, países africanos, entre 2019/2020.