Cacau pode ser o novo ouro em fruta de Angola

Que o produto lembra o chocolate não há dúvidas, mas uma pesquisa mais aturada permite descobrir que a o cacau, que é também chamado “ouro em fruta”, tem outras aplicações, dentre elas na indústria de cosméticos, na extracção de manteiga e sumo natural muito procurado nas casas especializadas e na medicina

Com este potencial, a província mais a Norte de Angola pode entrar na rota da lucrativa indústria do cacau que tem como ponto de referência mundial o mercado de Amsterdão, tão-somente o maior porto de distribuição do cacau a nível planetário.

Quase no final da operação que busca inscrever o nome de Cabinda na rota do cacau, o mérito pode ser atribuído à força empreendedora de um angolano, no caso Kinito Van-Dunem, que, juntando-se à holandesa Ingmar Niezem, podem um dia entrar nos anais da história caso o sonho a passar à realidade, constando como tendo sido os pioneiros na operação da feitura do primeiro chocolate “made in Angola”, mas, como em tudo, o processo vem de muito antes.

Marcos Nhunga, ainda nas vestes de ministro da Agricultura e Florestas, já numa altura em que o lema do Executivo era procurar alternativas a maior commodity de Angola, o petróleo, serviu-se da sua área do saber (agronomia) e do conhecimento da história da sua terra natal, lembrando-se que Cabinda no passado colonial era uma das poucas parcelas do território angolano que produzia o cacau, não obstante ter sido preferencialmente apenas em fazendas de latifundiários.

Foi então que, gizando um programa de reintrodução da cultura, no âmbito da diversificação da produção nacional, o então ministro sugeriu aos produtores o retorno ao cultivo.

Providenciou assistência e apoios e engajou-se pessoalmente na “operação de marketing” em busca do futuro mercado para a nova cultura agraria que não colhia tanta simpatia no seio dos produtores da província mais setentrional do país, o que encontrou alguma adesão de produtores, particularmente nas zonas de Buco Zau e Cacongo.

Quis o destino que, dois anos depois (coincidindo com a colheita dos primeiros frutos), o agrónomo estivesse nas vestes de novo timoneiro de Cabinda, depois de ter sido cambiado de funções pelo Titular do Poder Executivo, transferindo-o da pasta ministerial para a de governador de Cabinda.

O Chocolate de Cabinda, ao menos em teste e levado a imprensa especializada, é já uma realidade. Existe a amostra daquilo que pode ser baptizado como sendo o primeiro chocolate 100% angolano. É 100%, porque até o açúcar, outro aditivo necessário à produção da iguaria também é exclusivamente angolano, segundo garantias de Kinito.

Não fosse a pandemia, “estaria em teste em casas especializadas e, quiçá, em feiras no país e no estrangeiro”, garante Kinito, que mesmo assim não perde a esperança e o entusiasmo, acreditando que o grande dia está prestas a chegar. Ele, e a parceira (holandesa) estiveram em solo cabindense e arregaçando as mangas não tiveram mãos a medir e com esmero deram forma ao produto que, acredita, pode ser rapidamente transformado em “mais-valia no mercado nacional e internacional”.

Para agregar valor e prosseguir a missão de inserção de cabinda na rota do chocolate, Kinito está a viabilizar a criação e legalização de uma empresa de direito angolano que se dedicará à “missão exclusiva de assessorar a produção e comercialização do chocolate de Cabinda” e mais tarde fazer dela a mola expansionista da produção do cacau noutras parcelas do território nacional.

A província do Uíge é putativamente uma das primeiras a perfilar-se na linha de produção, estando em curso os primeiros passos. Kinito acredita que solos em outras parcelas desta vasta Angola podem acolher plantações do cacau.

Kinito Van-Dunem espera que “o sonho seja levado a outros empreendedores”, pois da união de todos pode surgir uma indústria potencialmente promissora e que poderia representar “fonte de arrecadação de divisas para o país”.

Valências do cacaueiro

A parte mais conhecida desta planta que, pode ter sido originária da América do Sul, é o aproveitamento do seu fruto, que é matéria-prima da indústria. Mas do fruto do cacaueiro é possível extrair outros subprodutos, já comuns na industrialização, como o caso do suco de cacau, a partir da extração da sua polpa.

Do fruto, aproveitam-se as amêndoas, com as quais são produzidos o cacau em pó e a manteiga de cacau.

Em fase posterior do processamento obtém-se o chocolate, produto alimentício de alto valor energético, mais a outra valência é a polpa mucilaginosa branca e açucarada, com a qual se produzem sucos, refrescos e geleias.

O suco de cacau possui sabor bem característico, considerado exótico e muito agradável ao paladar, assemelhando-se ao suco de outras frutas tropicais. É fibroso e rico em açúcares (glicose, frutose e sacarose) e também em pectina.

Algumas das substâncias que compõem o suco de cacau lhe conferem uma alta viscosidade e aspecto pastoso, pelo que para a indústria de cosméticos vai apenas um passo.

Com a polpa de cacau pode fazer-se ainda destilados finos, fermentados – a exemplo do vinho e do vinagre – e xaropes para confeitaria, além de néctares, sorvetes, doces e uso para iogurtes.

A casca do fruto do cacaueiro, também pode ter aproveitamento económico. Ela serve para alimentar o gado bovino, tanto “in natura” como na forma de farinha de casca seca ou de silagem, como também para suínos, aves e até peixes.

A casca pode ainda ser utilizada na produção de bio-gás e biofertilizante, no processo de compostagem ou vermicompostagem, que desemboca na obtenção de proteína microbiana ou unicelular para produção de álcool. Consta da literatura especializada que uma tonelada de cacau seco produz oito toneladas de casca fresca. Um verdadeiro tesouro!

Características ímpares

O cacaueiro tem folhas longas que nascem avermelhadas e logo ficam de um verde intenso, medindo até 30 cm. Os seus frutos também podem medir até 30 cm de comprimento, apresentando coloração verde, vermelha ou acastanhada, cores que tendem ao amarelo, quando amadurecidos.

No interior do fruto são encontradas de 20 a 50 sementes recobertas por uma polpa branca e adocicada, fixadas e uma placenta com as mesmas características.

A flor do cacau tem cinco pétalas e é polinizada por pequenos insectos, ao longo de todo o ano. Entre a polinização e o amadurecimento do fruto decorrem cerca de 180 dias.

Os botânicos acreditam que o cacau é originário das cabeceiras do rio Amazonas, daí a compatibilidade com as verdejantes terras da Floresta do Maiombe. Ao longo da sua existência ter-se-á expandido em duas direcções principais, originando três grupos importantes: Criollo, Forastero e Trinitário.

Ela é uma planta estimulante, tropical, pertencente a família das Esterculiáceas, encontrada no seu habitat, nas Américas, tanto nas terras baixas, dentro dos bosques escuros e húmidos sob a protecção de grandes árvores, como em florestas menos exuberantes e relativamente menos húmidas, em altitudes variáveis, entre 0 e 1.000 m do nível do mar.

Colheita

Inicia-se a partir do segundo ano. Do segundo ao quarto ano, os frutos podem ser colhidos praticamente durante o ano todo. A partir do quinto ano, as colheitas são feitas em dois períodos. Consta igualmente em estudos tornados públicos que a produtividade normal a partir do sétimo ano é de 1.200 a 1.500 Kg por hectare.

Em 2018, o cultivo global de grãos de cacau movimentou uma economia de USD 9,94 mil milhões. Naquela altura (2018) foi estimado um crescimento médio de 7,3% ao ano de 2019 até 2025, pelo que é verdadeiramente uma indústria em ascensão.

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