Ofício de cronista

O cronista vive do ofício de cronicar e tem como endereço habitual uma tasca. Artigo primeiro do estatuto. No táxi, autocarro, barco ou avião torna-se um ser transitivo. Artigo segundo – disposições preliminares do código de ética deontológica. Todas as disposições em contrário são “fake news.”

A confraria angolana dos cronistas elege decano o cronista Kavulandungo. Nenhum voto contra e nenhuma abstenção. Unanimidade, portanto. Depois, cada cronista é um ser invulgar e conta histórias invulgares, à sua maneira, cada um com o seu estilo e suas manias. E o seu exército particular de leitores.

Quando entra num bar deve ser tratado com distinção, mas todos podem deixar -se sentados. Dobrado o esqueleto humano, somos todos iguais, pelo menos perante o general coronavírus.

E enquanto permanecer no bar seu único ofício é o de satisfazer a lombriga e conversar, enquanto aperta um sumo de uva fermentada ou chora num destilado ou suspira depois dum café do Uíge.

Haaaaa…(expressão de satisfação).

E depois vai para casa e tira uma soneca. Acorda lá pras tantas:

-filha, um café, por favor. Daqueles que eu gosto, puro, do Uíge, na cafeteira de barro. – Também posso servir-te um kapuka da ponteira, queres, filho?

(koroooooo)

Assim que termina a sessão de arrotos, o cronista tem mais o que fazer. Por exemplo: pensar qual o tema da crónica seguinte. “ Assalto ao BPC “; “INSS dá calote aos pensionistas“; “Mana Juliana morta pela PN”. Como vêm, nunca falta matéria prima ao cronista, o que pode faltar é o animus de sentar e começar a passar as histórias para o papel.

Perdão: para o computador. Agora é tudo moderno. Antigamente, o cronista ditava a sua história para uma escrevente e escusava-se de enfiar os dedos na máquina de escrever. Era só levar o seu corpo diante de uma datilógrafa. A vida particular do cronista não tem interesse algum. Como viram.

Eventualmente, recebe um convite para o lambamento (não é alambamento, mas este é outro mambo) da filha da vizinha, vai e senta -se numa cadeira a ouvir as conversações entre as partes. Passa discreto por todo ritual. Chegada a hora dos discursos finais, isso é com ele:

– Excelências, família do nubente e da núbia, vossas camuzunzas e kamuzubios: é com elevada doutrina matrimonial que me apraz citar o código da família, o qual trago comigo um acadêmico exemplar, para dizer, melhor, expressar as minhas vénias ao futuro par romântico de pombinhos, que…Está mais do que na hora de encher o bucho.

Kajim Ban-Gala

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