Pegadas Íntimas, leituras de quarentena

Pegadas Íntimas, livro angolano publicado a título de estreia, por ocasião da XVII Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, marca mais uma etapa da vida literária do autor, Nguimba Ngola. O conteúdo do novo livro encontra ressonância nos seus títulos anteriores, nomeadamente, “Mátria” e “E Lá Fora os Cães”. Pegadas Íntimas, por ser parte de uma jornada de afirmação continuada do autor, justifica o que temos defendido em vários fóruns a propósito do ciclo geracional da nossa literatura.

A história deste poeta é a história de uma época dourada, pontuada de encontros juvenis para debates literários apimentados de horas prolongadas de recitais de poesia. O seu percurso interventivo, enquanto activista social voltado para as literaturas, inclui passagens pela Brigada Jovem de Literatura de Angola, em primeiro lugar, e pelo Movimento Lev’Arte, por último. Ngumba Ngola tem a vida artística marcada com trocas de experiência com escritores consagrados, tendo aplanado a sua jornada literária com as principais referências do nosso universo literário, nomes que dispensam apresentação: João Melo, Cristóvão Neto, Adriano Botelho de Vasconcelos, Trajanno Nankova Trajanno, José Luís Mendonça, Amélia da Lomba, Isabel Ferreira, Akiz Neto, Hendrick Vaal Neto, Abreu Paxe, Jimmy Rufino, este último, que nos deixou há pouco tempo, traído por um cancro. Entre outros nomes.

Poeta do nosso tempo, Nguimba traz no seu poemário, com muita frequência, o brio da paisagem urbana, redesenhando o papel dos seus actores, e situando a mulher, de propósito, como um símbolo de resistência à opressão e à descriminação do género. Isso ajuda a explicar a razão do título do seu livro de estreia, “Mátria”, publicado em 2009. Na obra despontam nomes e figuras, personagens anónimas e conhecidas que passaram a fazer parte da nossa convivência literária, como é o caso dos poemas Amiga da Zunga e Sanita Madalena.

Se é certo que o artista é um biógrafo do seu tempo, neste caso, Nguimba Ngola é-o. Como poeta modela o nosso espaço sociológico propondo, em todos os momentos dos seus textos, um novo olhar para o ambiente que nos cerca. A lírica dos seus versos situa-se sempre num olhar de dentro para fora, ora como um malabarista explorando a plasticidade da palavra, recriando novos planos de sonoridade, ora denunciando comportamentos perversos, ora fazendo-se artisticamente cúmplice das concupiscências da sociedade contemporânea, vertiginosamente materialista. Como contista reescreve a sociedade angolana e as suas vivências, traçando um enredo de lutas, desavenças, promiscuidades amorosas, vícios e paixões.

Em Pegadas Íntimas, o autor projecta a plenitude do amor: o amor nas suas diferentes acepções. “Amor platônico”, por exemplo, expressão usada para designar um amor ideal, alheio a interesses ou gozos. Um sentido popular, pode ser o de um amor impossível de se realizar, um amor-perfeito, ideal, puro, casto. Talvez seja tanto este o amor que os poetas buscam. Citando o excerto de uma epístola paulina, o autor recorda, em Pegadas Íntimas, que “o amor nunca falha” (I Coríntios 13:8). E nunca falha mesmo.

João Papelo

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