Privados do Estado

Temos ouvido com recorrência governantes angolanos, falando sobre a Covid-19 e pessoas infectadas, a referir-se a clínicas privadas. Muito bem, é bom que toda a gente e todas as instituições entrem nesta luta. Mas, sim, há um mais, sempre. Vamos lá.

Quando vamos ver, e porque os jornalistas gostam das coisas com nomes, lá se percebe, e os próprios governantes acabam por falar, as clínicas ditas privadas são a Girassol, ligada a Sonangol; a Sagrada Esperança, ligada a Endiama, e a Multiperfil, que, até onde se sabe, foi criada por decreto Ministerial (Decreto nº 33/02) e tem a categoria de Instituto Público. Ainda há pouco o Presidente da República lhe nomeou o novo Conselho de Administração.

Eu até percebo se me disserem que estas clínicas não estão subordinadas ao Ministério da Saúde, que têm atendimento diferenciado e caríssimo. Sim, entendo que para os responsáveis do Ministério da Saúde sejam corpos estranhos, mas privados? Por favor, um pouco mais devagar, porque dói… só de ouvir.

Se estas clínicas foram montadas por estas empresas e dinheiros públicos, do Estado mesmo, isto significa que são do Estado, ou não? Podem até ter estatutos “especiais”, mas…

Bem, se são privadas, seria bom que o Governo explicasse aos angolanos a quem alienou, quando e por quanto dinheiro. E, já agora, por que razão, a última mexida no Conselho de Administração da Multiperfil, por exemplo, teve mão e comunicado do Executivo. Só para saber, antes que qualquer dia aquilo a que o povo chama de hospital dos ministros, já em construção, pela sua especificidade e público selecto, não nos venham dizer que é, afinal, privado também.

Neste país de “viparia” estúpida, até se sabe que há tratamento do Estado a gente que é VIP (não quer dizer que eu aceite), mas há que assumir, é só isso. Com aqueles preços que o Estado cobra (o mesmo que tem a obrigação constitucional de prover saúde aos cidadãos), o povo, não irá lá se empurrar, fiquem descansados, mas não se finja que se trata de unidades privadas, por favor.

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