Sindicatos da educação prevêem absentismo escolar no regresso às aulas

Sindicatos da educação prevêem absentismo escolar no regresso às aulas

Para o secretário-geral do SINPROF, Admar Jinguma, a possibilidade de haver resistência por parte dos pais e encarregados de educação em mandar os seus filhos à escola é muito grande devido à existência, ou não, de circulação comunitária da Covid-19, que deixa as pessoas com medo.

Admar Jinguma disse que o seu sindicato está a receber várias manifestações neste sentido, apontando o caso de pais que preferem ver os filhos a perder o presente ano lectivo e repetirem-no em 2021.

O sindicalista vai mais longe e diz acreditar que o absentismo se poderá sentir, inclusive, na classe docente. “Os próprios professores também não irão e vão preferir ser descontados. Não é que nós estejamos a incentivar isso, mas estas manifestações refletem o sentimento das pessoas”, disse.

O SINPROF realça que ainda assim se está a chamar a atenção das pessoas no sentido de manterem a calma, porque acreditam que o Governo não está distraído e vai acompanhar a situação. Todavia, sublinha que pela letalidade do vírus, ninguém estaria disponível a mandar o seu familiar à escola nas actuais condições. Jinguma acredita que o tempo que nos separa da implementação da medida permitirá ao Governo fazer uma reflexão sobre se as aulas devem ou não continuar nas actuais condições, referindo que a data é apenas indicativa.

Já o secretário do SINPTENU), Lazarino dos Santos (falecido na Segunda-feira, 25, horas depois de conceder a OPAÍS esta entrevista, ver a pág.13), alinhou na mesma ideia, referindo que a abstenção escolar será inevitável, tendo em conta o impacto da Covid-19 na vida das pessoas.

Lazarino dos Santos disse a este jornal que as perspectivas para o pico da doença apontam, exactamente, para o momento estipulado para o início das aulas e não acreditam que as nossas escolas consigam criar condições para que haja segurança no seu interior.

“Temos que ser realistas. Há escolas que não conseguem meter os quartos de banho a funcionar, e vão conseguir criar condições para as crianças e adolescentes se protegerem do vírus? Não acredito”, enfatizou.

Perante tal cenário, o sindicalista mostrou-se céptico quanto ao reinício das aulas e diz não ter dúvidas de que a data avançada pelas autoridades não vai passar de perspectiva.

O SINPTENU entende ser o momento de se repensar no calendário escolar e mostra-se a favor, também, de que as aulas regressem apenas em Setembro e se volte ao modelo da UNESCO, tal como já havia avançado o SINPROF, por considerar que até lá há a probabilidade da situação estar controlada.

As duas forças sindicais apelam ao Executivo para levar em conta as contribuições dos parceiros sociais e realçam que os resultados positivos na educação constituem igualmente preocupação dos sindicatos.

No entanto, dizem que ficam com a sensação de que as consultas que o Governo faz aos parceiros sociais são apenas “para inglês ver”, pois, na hora da implementação prevalecem as decisões unilaterias.

Importa frisar que o Decreto Presidencial sobre o Estado de Calamidade Pública estipula o regresso às aulas do Ensino Superior e do Segundo Ciclo do Ensino Secundário (10.ª, 11.ª, 12.ª, 13.ª classes) para o dia 13 de Julho. O Primeiro Ciclo e o Ensino Primeiro Primário para o dia 27 do mesmo mês, sendo o Pré-Escolar sujeito a legislação própria.

Construção de mais escolas

Recentemente, a ministra da Educação, Luisa Grilo falou da possibilidade de se dividir as turmas, colocando os alunos em salas diferentes quando se retomar as aulas, uma situação não prevista no Decreto sobre o Estado de Calamidade.

Para os sindicatos, esta é uma possibilidade utópica e apontam ser a razão pela qual não veio espelhada no documento, por se entender que seria impossível de concretizar no terreno, atendendo ao número de alunos existentes na maior parte das escolas públicas.

“A Ministra fala em divisão de 25 alunos por turma, precisaríamos de mais três salas para meter alunos daquelas turmas que têm até 100 alunos. Donde sairiam essas três salas e como ficariam os tempos dos professores?”, questiona Jinguma, acrescentando que mesmo que se pensasse no desdobramento dos professores, não seria possível atender todas as salas.

O sindicalista diz que esta é também uma oportunidade para o Executivo pensar em aumentar o orçamento destinado à Educação para a construção de mais e melhores escolas, que reúnam requisitos aceitáveis.

Distanciamento físico é “miragem

O Decreto Presidencial sobre o Estado de Calamidade Pública obriga o distanciamento físico de dois metros entre pessoal administrativo, professores e alunos, no acesso às infra-estruturas escolares.

Os sindicatos consideram que, na prática, esta medida está longe de ser cumprida nas nossas escolas caso a pandemia da Covid- 19 não esteja controlada. “Ainda temos quatro alunos a se sentarem numa carteira que seria apenas para dois elementos. Há escolas com mais de 500 ou mil alunos por turno. Nesta realidade é impossível cumprir-se o distanciamento entre pessoas”, disseram.

Todavia, esperam que o tempo que nos separa até à implementação do documento sirva de reflexão.