Uma carteira para três estudantes pode facilitar a propagação da Covid-19

Uma carteira para três estudantes pode facilitar a propagação da Covid-19

“Os dirigentes pensam o ensino olhando para a realidade dos filhos deles. Não sabem que há escolas públicas em que as casas de banho não funcionam. Outras em que são as crianças que limpam até as casas de banho antes de entrarem nas aulas”, disse o líder associativo.

Por este motivo, Francisco Teixeira considera o regresso às actividades lectivas em todos os subsistemas de ensino a partir de Julho como uma medida acertada, porém, só haverá êxito se o Governo criar condições para que haja cumprimento das medidas de prevenção.

“O regresso às aulas só será bom para os estudantes caso o Governo assumir as responsabilidades das medidas de prevenção como o distanciamento e criar condições para que os alunos tenham máscaras”, frisou.

Com a entrada em vigor do estado de calamidade, o Presidente da República, João Lourenço, decretou que os estabelecimentos de ensino, públicos e privados, de nível superior e do II ciclo do ensino secundário devem reiniciar a actividade lectiva a partir do dia 13 de Julho. Já os do I ciclo do ensino secundário e do ensino primário, públicos e privados, deverão fazê-lo a partir do dia 27 de Julho.

No entanto, a abertura e funcionamento dos equipamentos de ensino pré-escolar estão sujeitos a regulamentação específica.

Francisco Teixeira disse que as disparidades nas datas previstas para o reinício das aulas podem não influenciar em nada nas medidas de prevenção. Em seu entender, neste momento já se deveria ter iniciado o processo de fiscalização de todas escolas públicas neste país.

Sobre a exigência de existir distanciamento físico à entrada e dentro das escolas, considera que será possível somente em algumas e, em outras, supõe que os seus directores vão optar por coarctar o direito ao recreio aos estudantes “O distanciamento em desvaloriza muitas escolas públicas não será possível. Nós, MEA, estaremos aqui para supervisionar”.

Considera ser importante os governantes terem em atenção que existem escolas que têm nas suas proximidades elevados amontoados de lixo. A título de exemplo, contou que os estudantes que frequentam a Escola n.º 3022, localizada de fronte do Hospital dos Cajueiros, em Luanda, convivem com amontoados de lixo no quintal.

Declarou que em situação de penúria se encontram também os estudantes que frequentam as escolas n.º 3084, o Liceu que está junto a 3053 “Paiva”, a 3062 “António Jacinto”, a 3047, a 3044 (na Vila da Mata), a 3048 “Complexo Escolar do Cazenga” e a Escola Força de Vontade, no Zango 3.

Escolas de Luanda com WC inoperantes e fracas receitas

Francisco Teixeira disse que desde que apresentaram o estudo sobre a inoperância dos quartos de banho nas escolas de Luanda às autoridades, em 2013, até agora as condições continuam na mesma, porque os filhos dos governantes não estudam em escolas públicas. “Desafio um deles a contrair isso”, enfatizou.

No estudo feito pelo MEA e tornado público no mesmo ano, fazse a descrição de escolas onde são os próprios alunos menores de 13 ou 12 anos que limpam os vasos sanitários, antes de entrarem na sala de aulas.

Disse que há muitas crianças que, face a inoperância dos banheiros, vão fazer necessidades nas suas residências. “75 % dos estudantes do primeiro ciclo ou do ensino primário nunca viram um rolo de papel higiénico comprado por este Governo. Porque eles nunca o fizeram. É humilhante ver as crianças a estudarem assim”, frisou.

A situação se agudiza ainda mais, em seu entender, pelo facto de as escolas não terem condições financeiras para assumir tais despesas, uma vez que a Lei de Bases da Educação, no seu artigo 99.º restringe a cobrança de propinas, taxas e emolumentos. O artigo em referência determina que cabe ao Titular do Poder Executivo regular e autorizar a cobrança de propinas, taxas e emolumentos pelos serviços prestados nas instituições de ensino público nos diversos níveis de ensino.

“Nós, MEA, já escrevemos várias cartas ao Senhor Presidente da República e até agora não tivemos resposta. Soubemos que o Ministério da Educação deu entrada da proposta dos preços em Agosto”, frisou. Acrescentou de seguida: “temos a plena certeza de que este facto vai dificultar muito as responsáveis escolar. Parece que pouco importa aos governantes, uma vez que os seus filhos estão nos grandes colégios”.

Disse que desde Agosto, os serviços de Apoio ao Presidente da República e o Ministério das Finanças se remeteram no silêncio. “Estes responsáveis da Educação vêem a educação no reflexo dos colégios dos seus filhos, o que acho errado. Estão pouco se importando para os problemas da educação pública”, desabafou.

MEA diz que são os estudantes que limpam as escolas

Francisco Teixeira disse ainda que por existência de poucos funcionários de limpeza em algumas escolas, são os próprios estudantes dos três turnos que fazem esse trabalho. Uma situação que ocorre há anos e que denunciaram de forma reiterada ao Ministério da Educação e à Delegação de Educação, mas sem sucesso. “É humilhante. Este governo é insensível para com os estudantes pobres”, lamentou.

“A escola pública só terá dignidade quando os filhos dos dirigentes estudarem lá. O ensino público perdeu respeito. É humilhante assistir crianças a estudarem sem carteira e a escreverem de barriga para baixo”, frisou.

Acrescentou de seguida: “como vamos ter uma educação do tamanho dos sonhos das crianças e jovens angolanos, quando as pessoas que pensam e decidem pelo sector, nem sequer acreditam no ensino público? Caso acreditassem, os seus filhos estariam a estudar lá”.