25 De Maio foi o Dia de África. E hoje?

Sobre a liberdade da África. O que podemos dizer de novo que ainda não foi dito e pensado pelos filhos mais talentosos, honestos e mais sacrificiais deste continente?

Que hoje queremos uma África mais emancipada, que pensa e faz com a sua própria cabeça? Isso foi dito e muito bem. Pelos pais do pan-africanismo, Crummell
e Du Bois em particular, os do Harlem Renaissance, ainda Du Bois, Marcus Garvey ou Louis Armstrong, os da Negritude, principalmente Césaire, e todos os líderes anticolonialistas africanos, a começar com Kimpa-a-Vita e Nelson Mandela.

Basicamente, a busca pela liberdade sempre foi afirmada pela maioria dos filhos da África pelo mundo. Porque eles acreditavam, e os que estão vivos ainda acreditam, mesmo que expectativas e promessas tenham sido traídas depois (durante os 64 anos desde as primeiras independências da África negra que tanto desejavam), na necessidade de alcançar este ideal através da unidade e do renascimento africanos.

O que ainda queremos acrescentar sem o inventário foi feito de maneira brilhante e continua a ser lembrado por mulheres e homens de convicções? Devemos talvez ter a coragem de dizer mais firmemente que não fomos totalmente bem-sucedidos.

Digamos, pelo menos, que não entendemos bem o caminho que traçámos, pois ainda achamos difícil aceitar que o traímos. Porque ainda hoje pedir aos nossos representantes tradicionais que falem na língua do nosso ex-colonizador nas reuniões oficiais mais simbólicas não é nada emancipador. Ah, é porque fizemos tudo para incentivar aqueles que falam essa língua a desprezarem as nossas e que há dificuldades em encontrar bons tradutores? Bem, sim, colhemos o que semeamos, é assim a vida!

No entanto, contaram-me uma feliz anedota sobre um poderoso governador nigeriano que, durante uma audiência com a rainha da Inglaterra, havia conversado com ela através dos seus tradutores iorubás. Lembro-me sempre dessa e cada vez com prazer, porque esse africano entendeu tudo.

Portanto, não há mais nada que possamos dizer sobre a liberdade africana e não há muito mais sobre a África em geral, já temos os manuais, com boa matéria. Podemos, no entanto, fazer o que os bons livros dizem, porque vestir roupas africanas para marcar a ocasião durante a comemoração de um dia não é suficiente.

E mesmo que haja cada vez menos vergonha de expressar-se em línguas nacionais em público, para aqueles que ainda as têm ou para os oportunistas que usam as poucas palavras que conhecem, para impressionar, em particular os Assimilados que andam de bubu e nas suas músicas, temos que fazer mais.

Se eles realmente querem ser africanos, que cantem que a peruca da mulher negra é o produto de um complexo habilmente instilado pela colonização. Isso sim respeitará as recomendações dos nossos grandes pensadores!

Também podem cantar que não há “heróis” nas guerras fratricidas, elas apenas beneficiam os seus patrocinadores e não o nosso país nem o nosso povo. Os heróis são aqueles que lutaram contra o colonialismo e aqueles que ainda estão a lutar pela liberdade da África! Mas já faz um tempão que não me contam que um diplomata angolano observou atentamente o momento em que o representante de Portugal levantou a mão, durante as votações da ONU, para depois levantar a sua.

Aparentemente, era assim que, no momento de uma votação decisiva e estratégica, comprometíamos a estratégia de votação do nosso continente, à qual o
nosso representante sempre era previamente associado, durante os conciliábulos com outros representantes do continente, e que ele se comprometia em apoiar. Então, evoluímos!

De facto, é agora uma questão de passar das palavras à acção, do pensamento à materialização e da farsa à realidade. Devemos saber que a exibição na televisão de assassinatos de negros pela polícia em plena luz do dia no Ocidente afecta simbolicamente todos os negros do mundo.

Durante séculos, a exibição de corpos negros moribundos foi um meio de aterrorizar os negros e manter a supremacia branca.

Portanto, a exibição do recente assassinato de George Floyd nos Estados Unidos deve interpelar-nos todos: isso mostra o desejo de perpetuar essa história. Esta é uma mensagem forte para a nova geração de governantes africanos que estão a substituir aqueles que traíram as expectativas das suas nações e as promessas feitas aos seus povos.

Eles devem necessariamente dedicar-se aos interesses da África, porque o Ocidente tem razão em defender os seus interesses. Sabemos que a vida de um Negro não conta tanto quanto a vida de um Branco, ontem e hoje; portanto, é apenas a reconstrução esperada da África que pode reverter essa triste realidade, como os Judeus em relação a sua poderosa terra, Israel.

Acabamos de celebrar a necessidade de unidade e renascimento africanos e essa foi a principal motivação para a criação, a 25 de Maio de 1963, da Organização da Unidade Africana  (OUA), hoje conhecida como União Africana (UA). Nkrumah conviveu e trabalhou com Du Bois e absorveu o seu pensamento. Esse pensamento também queria que os brancos hoje se pusessem na fila como todo o mundo quando vão a um banco angolano, a uma administração ou empresa para ter acesso a um bem ou serviço.

É assim que eles fazem nas suas terras. Portanto, essa África Nova não deve ser criada sem a sua diáspora. Os negros de todo o mundo têm uma história comum. Apesar das diferentes correntes, a relevância contemporânea do ideal panafricanista continua a basear-se na unidade e na interconexão de destinos ligados por uma história comum de precariedade (comércio de escravos, escravatura, colonialismo e racismo) e um objectivo comum (emancipação).

Neste caso, o destino dos negros no mundo está intimamente ligado ao futuro do continente africano. O debate sobre a complexidade da odisseia do Negro permanece nos mundos negros, como também  existiu, ou existe ainda, nos dos Judeus. Mas, ainda como os Judeus – em relação a Israel –, é da África, a mãe da sua cultura
e civilização que desenvolveu lá longe, que a diáspora pan-africana poderá receber a sua verdadeira regeneração. E isso só pode criar uma África mais forte.

É com esta África que questionaremos as religiões que foram impostas pelos opressores e que tanto amamos. É com esta África que teremos nomes e apelidos: os nossos. E a festa de 25 de Maio será mais bonita, com os nossos imaginários.

Ricardo Vita
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