Esola de rico, escola de pobre

Vai ser um cabo dos trabalhos o Executivo conseguir que os pais deixem os filhos voltar à escola este ano. Mesmo as escolas privadas terão problemas, com excepção daquelas muito caras, quase exclusivas, mas mesmo aí as coisas não serão fáceis.

Além do receio de contágio que os pais alimentam, e mais agora quando os números da Covid-19 vão crescendo, o desencontro em termos de qualidade das escolas privadas e as públicas pode fermentar mais desconfortos sociais e com pendor político importante. Onde estudam os filhos dos dirigentes deste país? Quantos dirigentes são proprietários ou estão de alguma forma ligados a instituições privadas de ensino como negócio? A ministra da Educação é publicamente associada a uma rede de colégios privados e nunca o desmentiu publicamente.

Imaginemos que os seus supostos colégios reabram e com condições de segurança, quando as escolas públicas nem água têm. Imaginemos que os “filhos do poder voltem à escola”, que as turmas sejam divididas em duas ou três, que haja termómetro à entrada, água corrente e detergente e álcool em gel, que percentagem de alunos o Governo dirá que retomou as aulas? Que factura política está o Governo disposto a pagar?

Por outro lado, estará o Executivo pronto a anular o ano lectivo? Como ocupará os professores do ensino público e o do ensino privado que motivaram a obrigação do pagamento da propina até sessenta por cento, sendo que boa parte das escolas não está a prestar serviço à distância? E se o vírus permanecer no próximo ano, até lá já terá melhorado as escolas com dignidade?

Fôssemos todos iguais e qualquer decisão seria menos polémica. A diferenciação social artificial tão cara aos nossos endinheirados e detentores de poder um dia teria de criar problemas a quem governa, é nestas pequenas coisas que pode começar o desabar. Recomenda-se muito, mas muito jogo de cintura. E a ministra, talvez nem se deva expressar publicamente sobre este assunto, não há como não a ligar a um suposto interesse próprio, se é que existe.

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