Gérard Depardieu assombrado por Satanás

A classificação de algumas obras cinematográficas como “filmes malditos” é quase sempre um exagero. Mas apetece dizer que alguns andam lá perto... Será o caso de Sob o Sol de Satanás (1987), de Maurice Pialat, agora disponível numa plataforma de streaming.

Poderá pensar-se que a “maldição” decorre dos elementos ficcionais do próprio romance, homónimo, de Georges Bernanos, adaptado por Pialat. E convenhamos que esta é uma perturbante aventura, carnal e espiritual, capaz de questionar as fronteiras da crença e da descrença, da fé e da sua ausência.

Estamos perante a história íntima de um padre católico, na zona de Pas de Calais, na década de 1920 (o romance foi publicado em 1926), que vive entre dois pólos dramáticos: a tentação do mal (a referência satânica está longe de ser decorativa) e o seu empenho em salvar a alma de uma jovem que matou o amante.

Tudo isso ecoa os momentos mais radicais do cinema de Pialat, observador obsessivo, sempre muito céptico, das relações humanas. Lembremos que, antes, encontrávamos já na sua obra títulos como Quando o Amor Acaba (1972), Loulou (1980) ou essa espantosa digressão em torno de uma jovem à deriva que é Aos Nossos Amores (1983), filme revelação de Sandrine Bonnaire. É ela, aliás, que interpreta a figura feminina de Sob o Sol de Satanás, contracenando com Gérard Depardieu, na figura do padre, por certo uma das personagens mais complexas e fascinantes de toda a sua carreira.

Enfim, este foi um filme cuja consagração instaurou também uma espécie de vazio simbólico. Sob o Sol de Satanás arrebatou a Palma de Ouro de Cannes/1987, atribuída por um júri presidido por Yves Montand. O prémio dividiu os espectadores e, em particular, os jornalistas, numa clivagem que começou na própria cerimónia de encerramento do festival, com Pialat a ser insultado por uma parte da plateia. Consequência ou não das tensões aí expostas, o certo é que Pialat só realizaria mais dois filmes – Van Gogh (1991) e O Miúdo (1995) -, vindo a falecer em 2003, contava 77 anos. A “maldição” pareceu estender- se ao próprio cinema francês: passaram-se mais de duas décadas até um filme produzido em França conseguir de novo receber a Palma de Ouro (aconteceu em 2008, com A Turma, de Laurent Cantet).

Sob o Sol de Satanás está disponível na Filmin, numa secção dedicada, precisamente, a vencedores do Festival de Cannes. Para lá de alguns dos mais recentes, vale a pena recuar no tempo e destacar A Doce Vida (1960), de Federico Fellini, e A Missão (1986), de Roland Joffé.

Fonte: Diário de Notícias

error: Content is protected !!