Medo do coronavírus pode ameaçar processo de ensino e aprendizagem

O psicopedagogo Figueiredo Luvunga chama a atenção ao facto de o processo de ensino e aprendizagem sofrer interferência do medo do novo Coronavírus, que ainda persiste entre os alunos. O especialista defende a necessidade de criação, junto das escolas, de um departamento psicopedagógico, com urgência

Decreto Presidencial sobre o Estado de Calamidade Pública determina o regresso às aulas do Ensino Superior e do Segundo Ciclo do Ensino Secundário (10, 11, 12, 13 classes) para o dia 13 de Julho. O I Ciclo e o Ensino Primário têm o regresso previsto para o dia 27 do mesmo mês, sendo o Pré-Escolar sujeito a legislação própria.

Durante este tempo, que se prevê de preparação, deve-se discutir abertamente, na opinião do psicopedagogo Figueiredo Luvunga, com a envolvência dos professores e da sociedade civil, a questão da bio-segurança nas escolas e não tratar o assunto como se fosse segredo de Estado.

Mais do que isso, Figueiredo Luvunga chama a atenção sobre o processo de ensino e aprendizagem, cujo elemento atenção e vontade de aprender do aluno constitui importante tarefa, e que poderá sofrer interferência por causa do “medo de ser infectado com este vírus invisível”.

A criação de um departamento psicopedagógico, nesta altura, deve ser uma obrigação. Há muito que, segundo o interlocutor, “temo-nos esquecido da importância deste tipo de especialista nas escolas e nos queixamos da dificuldade de assimilação dos alunos”. Infelizmente, nós misturamos todos os alunos na mesma sala, disse, até mesmo aqueles que têm necessidades de educação especiais e depois nos queixamos da não assimilação de uns.

“Um gabinete psicopedagógico ajuda bastante. O ISCED forma profissionais, a Ordem dos Psicólogos pode ajudar a encontrar estes profissionais e não devíamos ter escolas sem este gabinete de apoio. É preciso que coloquemos os técnicos formados por nós no seu devido lugar. Os especialistas existem, mas o problema está na estrutura máxima, que não os valoriza”, disse.

Agora, mais do que nunca, esses profissionais serão precisos, mas Figueiredo disse que não se pode esperar que aconteçam situações do género para valorizar os técnicos. “É o que está a acontecer com os médicos e enfermeiros, que durante muito tempo foram desvalorizados e, hoje, viraram heróis. Temos que saber valorizar até mesmo em situações normais”, sublinhou.

Sem condições de bio-segurança, escolas serão centros de contágio

Independentemente da situação que o país vive, algumas pessoas defendem que Angola não pode parar, mas para o nosso interlocutor o que mais preocupa não é a funcionalidade das instituições, mas, sim, a realidade que temos nas nossas escolas. Existe uma grande vulnerabilidade nas nossas escolas em relação à higiene.

Mesmo antes da pandemia, disse, já se ouvia o grito de socorro das escolas, porque não conseguiam garantir o básico para manter a higienização da instituição e principalmente das casas de banho. Por isso, o entrevistado tem alguma dúvida sobre se até 13 de Julho as escolas públicas conseguirão criar tais condições.

“É preciso ver para crer. Deve-se criar condições de bio-segurança e não sei se isso será possível com a quota que o Executivo dá para a Educação. Se não se criarem as condições que se deseja para estas escolas, nós poderemos ter as escolas como grandes centros de contágio”, disse.

Mais do que sensibilizar as pessoas, Figueiredo Luvunga defende que o Estado deve criar as condições de bio-segurança para que as escolas funcionem. Muitos dos encarregados estão a protelar não mandar os educandos às escolas face à realidade que têm da higienização e outras condições das instituições de ensino.

Neste contexto, é de opinião que o Ministério da Educação deva dar garantias aos pais e encarregados de educação de que situações relacionadas à bio-segurança estão acauteladas, para que haja confiança. Pelo menos o aparelho de medir a temperatura, condições para lavagem das mãos, higienização do estabelecimento e distanciamento de segurança devem estar criadas.

“O que acontece em muitas escolas primárias é que muitos pais são obrigados a levar detergente em pó (que nós chamamos de Omo) para ajudar a escola a funcionar. Por outro lado, nós temos salas com mais de 50 alunos. Como é que se vai cumprir a regra de distanciamento?”, questiona.

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