O vírus do turismo

Não podemos sair por aí a viajar, por estes dias, o que é uma grande chatice. Entretanto, nem por isso deixamos de ver coisas novas e de reviver lugares. Este é um exercício muito interessante, aliás.

Há dias deixei-me ficar parado a ver Angola. Folheei centenas de fotografias de cidades e vilas e convenci-me, uma vez mais, de que só não temos bom turismo porque, de facto, os que o deveriam promover nunca o quiseram fazer, ou, se calhar, nunca souberam também o que andavam a fazer nos postos que ocupavam. Não sei se com o novo figurino do ministério as peças foram substituídas ou reanimadas para fazerem acontecer. Já agora, sendo a nova ministra uma conhecida ambientalistas, bióloga, espero que não se incline o prato para a ideia de que o turismo é sobretudo ir em safari ver bichos. É também, mas tem muito mais.

Lembrei-me do trabalho da arquitecta Ângela Mingas e da Associação Kalu, que queimaram dias e solas de sapatos a ensinar as pessoas a redescobrir Luanda na história das suas ruelas e fachadas velhas.

Olhei para as imagens do Golungo Alto, de Moçâmedes, da Rua “5 de Outubro” do Huambo, para o traçado ondulado de Ndalatando. São deliciosas aquelas fachadas, algumas com relevos interessantíssimos, varandas com milhares de histórias de amor, certamente, e de dor também. Há cenários para a produção cinematográfica que ninguém mais tem.

Não é de passagem, mas de ir ver, deixar-se inundar pela beleza, pelo frio, pela natureza dos pássaros e da vegetação… estou a recomendar uma ida ao Waco Kungo. Ah, há a Covid que impede viagens, é verdade, mas não impede a imaginação e o sonho, e muito menos a capacidade de começar a transformar cada uma daquelas imagens em histórias para contar ao mundo, para atrair gente que pague para as viver. Bem, isto se os promotores do turismo forem infectados pelo vírus de fazer o que se deve.

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