Cadastrem-nos!

Em Angola quando falamos de comerciantes de rua (Nano- Empresários) falamos de Quinguilas, Zungueiras, Candongueiros Taxistas, Engraxadores, vendedores de semáforos (nunca soube o nome correcto!!!), cupapatas (moto-taxis); Lotador de táxi; etc.

Todos sabemos que a sua grande maioria não está devidamente registado. Em Janeiro de 2020, estimava-se que o nosso PIB iria crescer 1,2%, e não foi preciso chegar a meio do ano, já em Abril, um artigo económico da Euronews apontava para uma recessão económica para Angola com uma quebra de 1,4%. Esta recessão está claramente relacionada com a queda do preço do petróleo e algumas medidas de contenção que afectam a actividade económica.

E para adicionar ao nosso quadro tão drástico economicamente, o FMI antecipa que a África subsaariana terá um crescimento negativo de 1,6%, o maior de que há registo e 5,2 pontos percentuais abaixo das previsões de Outubro. Para 2021, o FMI prevê uma retoma e que o continente volte ao crescimento, com o PIB expandir-se, em média, 4,1%. (Fonte: Euronews economia)

A minha questão, que se sobrepõe a todas estas questões económicas, é: quando irão apostar no investimento e formação no comércio informal? Quando irão registar estas actividades como sendo a nossa força matriz? Quando vão começar a olhar para o petróleo como reserva e não como solução diária? Mudando de pensamento, muda-se o paradigma mental que a nossa sociedade ganhou… Correr pelo mais fácil, sem critérios e sem controlo, onde a falta de cumprimento legal é imposta pela própria sociedade (Nano-empresários), onde esta não percebe que tais acções têm consequências.

Proposta:

a) Façamos um levantamento com equipas (voluntários), por município, onde o registo começaria pela “Tipologia de Negócio”;

b) Dentro de cada tipologia cabe ao Executivo definir os requisitos que este Nano-Empresário deve adquirir; e se este cumprir com os requisitos, então entrará para o programa “Força Matriz” (exemplo);

c) O que inclui o programa “Força Matriz”? Um plano de Formação, por um período de tempo (subsidiado). Definição dos espaços em que cada tipologia de negócio pode vender (cumprindo sempre com a legislação);

d) Autorização para actuar na área definida;

e) Procedimentos com prós e contras (tendo em conta a legislação), caso haja incumprimento;

f) Plano de pagamento de uma taxa mensal pelo exercício da profissão;

Haver um grupo de monitorização dos grupos que estão devidamente licenciados, com encontros periódicos para programas de sensibilização (de acordo com o programa executivo).

Entre outros!

Poderão dizer, “dá muito trabalho”… Sim, dá! Mas temos que dar o pontapé de saída para estas questões e garantir uma sociedade civil e económica organizada no futuro.

Os meus artigos têm um pendor grande para as zungueiras, mulheres a quem eu dou imenso valor, e lamento observar que a cada dia estas são desvalorizadas, quando podiam ser a nossa força matriz na economia informal e nosso pivot (imagem) para o turismo.

Andamos a desperdiçar dinheiro e a pensar que o petróleo é para sempre!!!!

As estratégias públicas de inclusão social e o empoderamento delas foram ineficientes, incipientes e incolores. Pensemos naquilo que anda a falhar.

Que estratégia tem a nossa Segurança Social para estas mulheres? (Para o próximo artigo).

E se houver dificuldades em identificar famílias carentes nas comunidades, a tarefa do cadastro fica facilitada, começando pelas zungueiras, porque são a representação real do teatro do sofrimento do grupo-alvo. Isso reduz o risco moral na implantação da estratégia. Não é em vão que o decreto presidencial sobre o Estado de Emergência, por conta do coronavírus, solta a corda da liberdade para a circulação da zungueira em tempo de confinamento… (pensem nisto), é porque elas têm força…só que ninguém lhes diz, mas o Executivo reconhece, se não, jamais daria tal liberdade!

Falta a nossa força de vontade, de todos unirmos forças e ajudarmos o Executivo nesta tarefa árdua. Criar gabinetes com pessoas que querem ajudar esta força Matriz que denomino “Nano-empresárias”.

Por isso eu digo, nesta fase de confinamento comprarmos algo à zungueira não é incentivo ao comércio informal, é apoio à sobrevivência.

O país tem que saber quanto vale o nosso mercado informal, já chega de trabalharmos com estatísticas incorrectas!

Ganharíamos todos!

Kénia Camotim

Economista

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