A arte de baralhar e dar de novo

Quando o bom do José Lima da Silva brincou no facebook, questionando sobre o que viria a ser a agenda de um dos governantes recém-nomeados pelo Presidente João Lourenço, a maioria dos internautas quase que respondeu, em uníssono, que este faria uma visita aos órgãos sob sua tutela e dias depois reuniria com os responsáveis destas instituições. E, se não fosse a COVID 19, iria a Portugal, seguramente, assinar mais alguns memorandos de entendimento com os seus homólogos.

As primeiras acções dos nossos governantes, sejam os que ganham novas pastas ministeriais ou até os mais novos governadores provinciais, é bastante previsível. Seguem um certo mandamento que acabam, por regra, por enterrar o que foi desenvolvido pelos seus antecessores, criando-se novas metas e prioridades, embora devessem todos eles estar em consonância com aquilo que são os desígnios do partido no poder em que pertencem.

Por exemplo, quando se chega aos governos provinciais, a lógica não é muito diferente daquela seguida pelos ministros. Já se sabe que, dentro de alguns dias, os mais novos governadores deverão encetar uma intensa jornada de campo pelos municípios que compõem a circunscrição que ganharam, os mais zelosos deverão conceder os 100 dias de graça para que alguns administradores demonstrem trabalho e só depois disso começam as exonerações que são da praxe.

Depois das últimas mexidas efectuadas pelo Presidente João Lourenço, da mesma forma que as ocorrida no ‘ancién regime’, muito boa gente já perdeu o sono. Aliás, quem anda por este país e vai acompanhando as insistentes mexidas efectuadas, algumas das quais em contracorrente, sabe que os novos inquilinos de alguns palácios e gabinetes ministeriais começarão pelos directores de gabinete, depois os secretários de Estado e se, possível, também os directores nacionais e estes os chefes de departamento e até de sectores.

No caso dos governos provinciais, já se sabe que, apesar das promessas de se manter uma equipa funcional, nos casos que existirem, os novos governadores são sempre tentados a montarem as suas próprias equipas, começando pelos membros dos seus gabinetes, estendendo-se aos vice-governadores e mais tarde aos administradores municipais.

Naquelas províncias mais complexas, como a capital Luanda, estas mudanças acabam por ser mais profundas. Vem um novo director da fiscalização, porque afinal esta é uma das pastas mais problemáticas e apetecíveis, um novo director  da Empresa de Limpeza e Saneamento de Luanda (Elisal) e, consequentemente, um novo modelo de limpeza para a própria edilidade.

A julgar pelo ritmo e o número de alterações que se observam no próprio Executivo, a cada momento um novo processo começa a todos os níveis. Esta operação, embora se diga que não, acarreta consigo inúmeras consequências, pondo em causa o sucesso de muitos projectos.

Mesmo que se queira em determinados momentos apenas olear a máquina, dar um novo impulso, até porque alguns são afastados por razões plausíveis por força dos pecados que vão cometendo, o constante baralhar e dar de novos as cartas poderá se transformar igualmente num factor de instabilidade e fonte de insucesso para os programas que se pretendem até 2022.

Ao longo dos anos de vida em que vamos assistindo às transformações, boas e más, neste país, poucos são os governantes que aceitam sequer reconhecer o papel positivo desempenhado pelos seus antecessores e dar sequências aos projectos em carteira.

Reconhecendo-se que existam algumas excepções, a prática entre nós tem sido o contrário, tanto a nível ministerial como dos próprios governos provinciais. Além das alterações no quadro das respectivas administrações, governos provinciais e ministérios, há ainda o velho hábito de que, independentemente dos timings e dos valores já gastos em determinadas empreitadas, cada um dos novos responsáveis introduz também o seu programa, algumas vezes com  alterações desnecessárias, que só são válidas porque, afinal, no fim deste jogo, ninguém quer ficar desprovido do seu ‘filet mignon’.

Momentos depois de terem tomado posse os novos responsáveis nomeados pelo Presidente da República, foi bom ter ouvido da nova inquilina do Palácio da Mutamba, Joana Lina, que não viria para efectuar ‘alterações profundas’, a julgar pelo trabalho que vinha sendo desenvolvido pelo seu antecessor, Sérgio Luther Rescova.

Seja quais forem as razões, a ver vamos se, nesta fase do campeonato, com PIIM’s à mistura e o tempo a apertar cada vez mais, para o fim do primeiro mandato do treinador, as alterações no balneário não atingirão a mesma profundidade. É necessário que se altere algumas regras do jogo, sob pena de no final alguns jogadores nem sequer se adaptarem ao próprio terreno e nas posições em que forem escalados.

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