Manas madames

Sempre dou prioridade no trânsito às mulheres, estava a dizer o meu vizinho, mas essas “manas madames”, continuou, dificilmente agradecem. Sobretudo as manas madames que andam em brutas carrões e vestem caro. Os perfumes que usam compram em Paris. As roupas que vestem são italianas.

Em Lisboa compram fios e anéis de ouro. Dizem (é provável) que ouro português é o melhor do mundo. Bla, bla, bla. Essas manas madames quando regressam ao país, entrei na conversa neste momento, e acrescentei que elas transformam-se: dão berros aos empregados de casa e dos escritórios dos maridos e até destratam as tias, sobretudo nas festas dos seus aniversários, perante as amigas e outros convidados.

No dia seguinte, de ressaca:

– Tia, desculpa (hic! hic!) ontem acho que bebi além da conta (hic!hic!).

– Ó, minha bebezinha, a tia perdoa, sim, sabe aquele batom que já não usas?

-Tá bom, (hic! hic! ) já sei, entendi.

– Aquele sapato, azul, que quase já não usas… (aaaaatxim!)

– Santinha !!!

A tia consegue o que queria. Troca a humilhação do dia anterior pela satisfação do dia seguinte. Faz tudo o que a menina madame lhe pedir. Uma sopinha, uma canjinha, suminhos de laranja com mel e hortelã . E com palhinha. Exige à tia que lhe ministre em doses ritmadas. As primas e amigas entretanto regressam para o “after party”. Reúnem-se no quarto dela:

– Não vos conto… O quê, prima?

-Conta! Conta! Conta !

-Xiuu! Tá bom, eu conto. Viram aquele gato, de facto todo branco, discreto no canto?

– Ô quem não viu?

– Eu até dancei com ele…O quê?

-Com aquele broto?

– Amiga, parecia o Higuita!

– Pois, ele é meu, filho do ministro. Em Junho vamos passar férias em Manana, Monano, ó, sei lá, uma coisa assim, só sei que nas oropas.

– Babado, prima, xe! Mónaco !

– É isso.

-Xe, e o teu namorado?

– Xiuuuuu !

Estava a dizer que sempre deu prioridade no trânsito às mulheres. Num desses dias, contou-me na sequência o meu vizinhoalguém bateu no rolante dele e evadiu-se da cena do “crime.”

Porém, acrescentou, fui a tempo de filmar no meu telemóvel o número da placa. O meu vizinho com esta filmagem dirigiuse à Direção de Viação e Trânsito (DVT). Depois de longa espera, finalmente foi atendido. Mostrou a gravação. Seguiu-se uma longa explanação do queixoso. Mas, o oficial, até cochilou enquanto ouvia, abruptamente levantou-se da cadeira :

– Atençãoooo, firme !!! Ouviu ou não? Firme !!!

– Sim, Chefe.

-Dispersar! Essa viatura é pertença do nosso maioral, anda com a excelentíssima senhora de casa do maioral.

-Mas…

-Não há mais nem menos, retire-se, é uma ordem de cumprimento obrigatório.

-Já que assim, só tenho a lhe dizer que não era ela que ia a conduzir.

– Epaaaa !

 (pulungunzummmm !)

O meu vizinho pôs-se ao fresco e não soube se da queda aparatosa do oficial da polícia resultara óbito. Num desses dias, encontra a viatura estacionada num shopping onde fora comprar uma camisa para o pedido duma sobrinha. Aguardou pelo retorno de quem conduzia a viatura. Em direção a ela vinha uma senhora vestida rigorosamente de luto, dos pés à cabeça. Dirigiu-se-lhe com o máximo tacto. No fim da explanação, ela respondeu-lhe:

-O dono do carro foi desta pra melhor. Era meu marido. Oficial Superior da Polícia. E quem conduzia o carro naquele dia era o meu namorado. Também já faleceu, de SIDA. Até que és jeitosinho. Posso abrir uma excepção pra ti, topas?

Kajim Bangala

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