Produtor projecta documentário que mostra História de Angola antes da colonização

Produtor projecta documentário que mostra História de Angola antes da colonização

Um documentário sobre a História de Angola, que retratará a época antes da vinda dos portugueses (1482) ao país está a ser projectado pelo produtor e realizador de cinema, Manuel Terramoto. O trabalho terá como base as pesquisas de trabalhos científicos feitos por cientistas angolanos na área da antropologia e outros meios.

Entre os vários assuntos, o também professor de História de Angola pretende abordar as organizações dos Estados naquela época, os ‘mitos’ em relação à fundação do Reino do Kongo, Matamba e o do Ndongo, antes mesmo da chegada dos portugueses, em finais do século XV e meados do século XVI, com o objectivo de que seja registado no mundo cinematográfico.

“Quando falamos da História de Angola, cingimo-nos à chegada dos portugueses, assim como a escravatura, mas a história começou muito antes mesmo de eles chegarem ao país. É essa parte que me interessa, em que tenho trabalhado agora. Tal como a antiga Grécia, também temos os nossos mitos”, disse em conversa com OPAÍS.

Para a elaboração do trabalho, Terramoto baseia-se na tradição oral, registadas pelos missionários europeus, que estiveram naquela altura nestes reinos. Disse serem padres capuchinhos, que faziam ali os seus trabalhos.

Realçou, no entanto, que antes da fundação dos reinos, ter havido povos que se organizavam em sociedades minúsculas, que não eram reinos e tinham as suas crenças, porque se falava de Deus, os génios das águas, das montanhas que ajudaram a fundar os reinos.

“Fica difícil dizer o século em que aconteceu, devido à falta de trabalhos arqueológicos, mas, a tradução oral é marcada com isto e hoje vemos como ‘mito’. É essa parte da história que considero interessante, pelo facto de nunca ter sido retratada em livro e no cinema. Me interessa retratar a vida dos angolanos antes da existência de Angola, da vida dos angolanos antes da chegada dos europeus e outras descobertas”, fundamentou.

Produção

Actualmente, Terramoto tem estado a escrever o guião, que culminará com a sua realização, cuja indumentária pretende começar a conceber em Setembro. Apesar de ter já tudo traçado, teme que a falta de apoios seja tida como obstáculo para o arranque do mesmo, uma vez que vários projectos encontram- se parados por falta de patrocínio.

Disse ainda que, devido ao surto de Covid-19, que se regista no país desde Março, prevê-se o arranque das realizações para o fim do ano em curso, ou até mesmo no começo do próximo. “Tudo implica valor monetário, que tem dificultado o arranque de vários trabalhos.

Se tivesse financiamento do Estado, ou de organizações interessadas, estaria a trabalhar de forma mais célere, com várias equipas e seria desenvolvido em oito meses no máximo. Como estou a lutar com os meus parcos meios, isso arrasta a produção por muito tempo”, lamentou.

Outro trabalho

Manuel Terramoto está ainda a trabalhar na produção do filme “O guerreiro Jagas”, também relacionado com a História de Angola, em que vai mostrar a sua origem, organização e técnicas de guerra, que foram usadas no país para enfrentar os portugueses.

Jagas é uma designação genérica para os grupos étnicos nómadas, que invadiram o Kongo e Angola durante o século XVI, mas que foram submetidos pelos locais e pelos portugueses.

O docente realçou que, pelo facto de as suas iniciativas cingirem- se a esta área de trabalho, os projectos acabam por ser mais onerosos, o que dificulta a sua realização. “Para retratar num manual escolar, ou livro didáctico é rápido, mas, quando se trata de cinema é necessário criar uma história para cativar o público. É preciso criar sempre uma estória entre as cenas para ter maior aceitação e atrair o público alvo”, constatou.

Valorização da produção nacional

Terramoto disse notar um certo preconceito com relação ao cinema nacional, isso, por ver que o público domina melhor o cinema americano, que de certa forma afecta o reembolso do valor investido nos trabalhos dos artistas locais.

Como historiador, produtor e realizador, observa o cinema como trabalho cultural e antropológico, que ilustra a maneira de ser de cada povo, conforme acontece nos outros continentes. Referiu ainda que o tempo de exibição dos trabalhos nas salas de cinema, para seja recuperado o valor investido, deve ser, no máximo, de um mês, para além das publicidades.

“O que temos visto, para dizer que não estão a beneficiar o cinema nacional, é que os filmes são exibidos em apenas um ou cinco dias, porque existe um certo preconceito e são vistos com certa reticência. Nunca vamos fazer filmes iguais aos americanos ou europeu, devido à nossa história”, elucidou.

Apesar do facto, reconheceu que os espaços de exibição de filmes são privadas e os proprietários gozam de liberdade de selecção. Desta feita, defende a existência de salas geridas pelo Estado, para que se possa valorizar a produção cinematográfica local.

“Se tivéssemos a funcionar as salas públicas, aí sim veríamos maior aceitação e seria rentável para nós. Por isso, vemos muitos trabalhos, boas criatividades guardadas em papéis, e Angola é um país rico em história. Há escritores que escreveram para o cinema, mas sem saber, como Óscar Ribas, Luandino Vieira, Uanhenga Xitu e andam aí, ninguém toca por falta de apoios”, concluiu.