Somos melhores do que isso

Somos melhores do que isso

As imagens são realmente poderosas. Muito fortes. Mais do que o que se esperaria. E estão a marcar o mundo, ao ponto de terem aberto uma brecha enorme nos noticiários sobre a pandemia da Covid-19. São mulheres e homens que ao lado do dever trazem consigo o direito à indignação. As fotos e vídeos mostram manifestantes e polícias abraçados, mostram agentes ajoelhados em gesto de respeito, mas também de protesto, mimetizando Derek Chauvin, o polícia cujo joelho se manteve sobre George Floyd que se queixava de não conseguir respirar. E aí ficou até se apagar uma vida.

E ajoelhados oram também, manifestantes e polícias, porque há momentos em que toda a gente tem de estar no mesmo lado. A história recente já teve outros exemplos, não tão pictóricos, não tão pacíficos, não tão teatrais, no melhor sentido.

No Leste europeu, nos anos noventa também houve gente e manifestar-se, também houve Polícia a carregar, também houve Polícia a negar-se a continuar a carregar. E regimes caíram.

E agora há uma forma de ver a vida que vai ter de mudar, a humanidade não suporta mais racismos e outros tipos de discriminação. Há labaredas em cidades americanas, há destruição, mas há sobretudo revolta, uma inquietude humana, das pessoas consigo mesmas, porque as pessoas sentem que podem ser bem melhores, porque a sociedade sente que pode ser bem melhor, porque a humanidade sente que pode ser bem melhor (e quer), que pode existir, coexistir, partilhar, sem o espartilho de uma coisa tão ridícula e persistente como o racismo.