#GeorgeFloyd

Sou português, branco, e activista convicto contra todas as igualdades. Todas! Sejam elas de raça, de credo ou de género. Tenho muitos amigos negros, mas realmente não dou conta disso. Tenho também amigos índios e pardos e mulatos, mas só percebo que eles não são iguais a mim quando os casos Floyd aparecem na televisão.

Abomino todas as desigualdades, tanto que nem as percebo. Mas apenas porque sou branco. Por isso sei que ninguém sente o racismo como os negros. Por mais solidário que um branco possa ser, por mais verdadeiras que sejam as histórias de envolvimento dos negros na sua auto tragédia, sei que nada me vai fazer entender a raiva que os negros sentem.

Gastei muita energia e muito tempo falando com muitos amigos negros e mulatos, discutindo sobre a discriminação e a violência de que, às vezes, são alvo. Tentei explicar, sem conseguir, que a maior parte dos brancos não é racista e que, sobretudo para as novas gerações – e dou o exemplo dos meus filhos —este é um problema que nem sequer se coloca.

Isso é tudo verdade para mim. Mas não é verdade para quem sofre. Uu vivo numa bolha e nas bolhas estas diferenças não se notam. Na bolha andámos todos juntos na mesma escola, aprendemos História dos mesmos livros, todos admirámos Martin Luther King, Malcom X, Amílcar Cabral e Nelson Mandela.

Por isso nos sentimos todos iguais. Nós, dentro do grupo de indivíduos brancos e cultos, pensamos sinceramente que não somos racistas, mas não sabemos que aos olhos de um negro esse nosso sentimento genuíno não é verdadeiro. Demorei muito tempo a entender que a minha herança cultural faz de mim racista.

Hoje sei que, por mais que eu apregoe a igualdade, a equidade e a solidariedade, por mais vezes que peça desculpa em público e em directo, por mais vezes que me declare culpado pelo infame comportamento dos meus avôs, de pouco adianta se não repararmos de facto o que fizemos durante séculos.

Só consegue achar que a escravidão é uma coisa do passado, quem é branco. Porque para os descendentes de negros africanos que pelo menos durante três séculos, foram comercializados como gado, para os filhos de África que morreram agrilhoados em galeras atravessando o Atlântico ou pereceram em trabalhos forçados na ponta de um chicote na Europa ou na América, isso foi ontem. Se o mundo quer paz precisa reparar isso. Como por exemplo Portugal está reparando os seus erros históricos com os judeus sefarditas dando de volta a nacionalidade.

José Manuel Diogo

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