Assim disseram!

Se ao cavalo dado não se olha os dentes, eu ouso acrescentar que, à quem o povo elegeu, deve-se apresentar ideias para melhor governar, contrariando a tese de que os “poderes” assentarão sempre na diligência, no querer e na definição dos líderes. E julgo que terá sido nesta perspectiva que o Titular do Poder  Executivo angolano convidou alguns membros da sociedade civil, para uma melhor análise  da situação epidemiológica da Covid-19.

Não obstante terem sido indigitados alguns membros para falarem em nome dos demais, terem feito discursos pré-concebidos segundo a Sra. Arlete  Chibinda, da UNITA, mas a verdade é que, em duas horas, não seria possível esmiuçar todos os problemas que Angola enfrenta.

É assim no governo do povo, pelo povo e para o povo. Embora a prudência recomenda por vezes que é melhor tomarmos a postura mais elevada da inteligência humana,  que, por sua vez, é a capacidade de observar sem julgar, pois, nem sempre quem cala consente.

Vale o que vale qualquer opinião contrária, contudo, uma considerável  corrente de opinião entende e eu subscrevo que a iniciativa serviu para não só auscultar as inquietações dos membros da sociedade civil, mas também para demonstrar de facto que estamos em fase de confinamento social, onde todo o esforço deve ser conjugado,  com vista não só ao regresso à normalidade da vida social, mas elevar a vida das populações para estratégias de necessidades sócio-económicas, políticas e materiais sucessivamente mais altos.

Salvo alguma falha de memória, o que não é o caso, não me recordo ouvir alguém, neste país, dizer de viva voz “contamos consigo Sr. Presidente” sem que tenha sido numa propensão ideológico-partidária, como fim último de enaltecer a figura do líder; bem como serem referenciados ministros pelos trabalhos desenvolvidos, na presença hierárquica do seu respectivo Chefe – entenda-se o Presidente da República. Posições expressas pelo representante da  Associação dos  Hotéis e  Risorts de  Angola (AHRA), Ramiro Barreira, num acto sublime e cujas preocupações foram apresentadas numa perspectiva bem estruturada e com eloquência dissonante, permitindo assim uma percepção fácil, na lógica de que a  liberdade de expressão precisa andar de mãos dadas com respeito, prudência e bom-senso.

A minha colega professora Laurinda Hoygaard pasme-se ao nervosismo de quem está acostumado a falar sem máscara, mesmo assim soube mais uma vez, e como nos acostumou, fazer elencar quais têm sido as preocupações dos académicos.

A senhora Fernanda Azevedo, que  representou as mulheres empresárias, mesmo não obedecendo a preocupação da Dr.ª Sílvia Lutukuca, Ministra da Saúde, em não retirar a máscara, não deixou em mãos alheias à necessidade continuada de se inverter o quadro face as cobranças sociais e espectativas de que compõe um cenário de sofrimento-angústia para a mulher; tendo lembrado aos presentes sobre o desemprego, estagnação dos projectos de emprego da juventude, assim como a deteriorização dos produtos no campo, apelando o executivo continuar e melhorar os programas de inclusão social.

Tingão Mateus, representante do Conselho Nacional da Juventude, fez saber que os jovens angolanos estão muitos afectados pelos efeitos negativos da covid-19, tendo considerado que este factor reduziu de forma drástica o poder de compra das famílias.

Teixeira Cândido, amigo e companheiro, em representação do Sindicato dos Jornalistas Angolanos, soube com a calma e discernimento que lhe é peculiar, mesmo não estando em posição sempre vantajosa de quem entrevista, pois, estava na condição de não o fazer, mas sim, entre coisa, menos coisas, propôs que o país tenha correspondentes nos países que dominam a política mundial; sugerindo, deste modo, a privatização do Banco de Comércio e Indústria (BCI), bem como a questão sobre à Comissão da Carteira e Ética, tendo, na ocasião,  reafirmado a velha questão atinente à falta de deontologia profissional;  e por fim sobre os heróis…

O Dr. Filipe Zau, homem da cultura, hoje nas vestes de académico e gestor de uma das renomadas universidades de Angola, que falou nas vestes de Presidente da Associação das Instituição Privadas de Ensino Superior, sugere maior abertura do primeiro emprego… com pauta bem elaborada, tendo se socorrido  às leis sobre o ensino superior, para e bem chegar às estáticas, para uma melhor elucidação e não só, da disparidade de preços do marcado entre os estabelecimentos de ensino universitário, as creches, entre outras.

O sociólogo Paulo de Carvalho, representante dos sociólogos de Angola, que também não se sentiu confortado com a máscara – ao menos pediu licença; observou que graças à covid-19 os angolanos estão a perceber as suas origens enquanto humanos, ou seja, a “limpeza das mãos e dos meios que nos rodeiam, tendo, na sequência, feito várias interrogações sobre o trânsito, o regresso ao interior do país, entre outras.

Falou ainda da diferença entre às elites, da construção de menos condomínios e da necessidade uma maior atenção às  políticas sociais e de segurança.

Considera o vírus da Covid-19 para si, um factor de união e desunião, assim como de violência doméstica, mostrando-se, deste modo, preocupado com a convivência social nos pós Covid-19, que, por sua vez, deve implicar um estudo social sobre o modo de vida das populações.

A reverenda Deolinda Dorcas Teca, secretária-geral do Conselho de Igrejas Cristãs em Angola (CICA), cumpriu com o que eu vaticinava, antes de usar a palavra. Não pregou, mas fez alusão à uma passagem bíblica…

Reafirmou o papel e a missão da igreja, além de ter  apresentado uma reflexão em quatro dimensões: social, económica, política e religiosa. Frisou sobre alguma deficiência no apoio às populações carretes. Apresentou propostas…Revisão do Plano de Desenvolvimento, assim como aconselha prudência quanto ao reinício das aulas. Termina tal como iniciou evocando a Bíblia…

Não tendo havido mais oradores, depois de oito intervenções, João Lourenço fez por concluir a sessão, anunciando o que ficou como recomendação, a perspectiva de se criar o Conselho de Concertação Social, tendo como Ponto Focal, o ministro de Estado pra Coordenação Económica.

Conclusão: afinal é possível saber-se do que se pode fazer, como fazer, e que as preocupações da sociedade angolana são transversais, e pode-se de forma dialogante, encontrar eco e quiçá, soluções se todos nós arregaçarmos as mangas. Todas as preocupações apresentadas terão resposta na análise a ser feita ao nível do conselho a ser criado para direccionar as ideias e propostas apresentadas. Mas como a ocasião também foi aproveitada para alguns incentivos de heroicidade, também endereço uma nota de apreço ao Presidente que os angolanos elegeram: quando lhe disserem que quando você não consegue, lembre-se que os grandes heróis já ouviram isso e nunca desistiram, pois, segundo Grenfek, o verdadeiro heroísmo consiste em persistir por mais um momento, quando tudo parece perdido.

Alberto Kizua