Falta de água, luz e latrina expõe angolanos a risco de contágio de Covid-19

A incapacidade de o Governo prover o fornecimento destes bens e serviços básicos às famílias contribui para que estas fiquem mais expostas ao contágio do novo Coronavírus, de acordo com um estudo realizado pela Afrobarometer, em parceria com a Ovilongwa Consulting

A pesquisa, a que OPAÍS teve acesso, diz que esta constatação põe a descoberto os desafios que as famílias angolanas estão a enfrentar no cumprimento das medidas sanitárias de higienização pessoal, no âmbito do combate à Covid-19. 

A equipa do Afrobarometer, liderada pela Ovilongwa – Estudos de Opinião Pública, entrevistou 2.400 angolanos adultos, entre 27 de Novembro e 27 de Dezembro 2019. “Uma amostra deste tamanho produz resultados nacionais com uma margem de erro de +/- 2 pontos percentuais e um nível de confiança de 95%”, enfatiza. 

Os pesquisadores da Ovilongwa Carlos Pacatolo e David Boio concluíram que apenas três em cada 10 angolanos têm água canalizada no interior das suas residências ou no quintal, enquanto quatro em cada 10 angolanos precisam de sair das suas residências para terem acesso a uma casa de banho ou latrina. 

“Cerca de metade dos angolanos não têm acesso à ligação eléctrica da rede pública”. 

Este estudo é divulgado num momento em que o país vive uma nova fase das medidas de isolamento social e de protecção individual, com a declaração do estado de calamidade pública, depois de dois meses em estado de emergência. “Entretanto, esta nova fase coincide com o aumento de casos de contaminação local da Covid-19, elevando os riscos de circulação comunitária do coronavírus”, lê-se no documento. 

Para ser mais preciso, diz o estudo que as fragilidades infra-estruturais (casa de banho/latrina, água e electricidade) desafiam não só as famílias angolanas, como também o próprio Executivo e, sobretudo, os parceiros de desenvolvimento a implementarem medidas adicionais para reforçar a capacidade do Governo de melhorar a oferta de água canalizada, energia eléctrica e sanitários de campanha. 

“Apenas três em cada 10 angolanos (30%) dispõem de água canalizada no interior das suas residências ou quintais. Um em cada oito angolanos (13%) obtém água para o consumo doméstico do chafariz ou poço com tubo ou manivela”. 

Esclarece que os residentes das zonas urbanas têm quatro vezes mais chance de usufruírem de água canalizada no interior das suas residências ou quintais do que os residentes das zonas rurais (41% vs. 9%). Em Luanda, menos de metade (44%) dos residentes dispõe de água canalizada no interior das suas residências ou quintais. A situação é mais crítica nas regiões do Leste (21%), do Norte (17%) e do Centro Norte (16%). 

Um terço da população sem água  

O estudo diz ainda que mais de um terço (34%) dos angolanos ficaram sem água potável suficiente para o uso doméstico “muitas vezes” ou “sempre” durante o ano de 2018, e 35% “apenas uma ou duas vezes” ou “algumas vezes” Apenas 29% dos angolanos desfrutou de fornecimento de água canalizada de forma regular. 

Por outro lado, diz que seis em cada 10 angolanos (59%) disseram possuir casa de banho ou latrina no interior das suas residências ou no quintal, enquanto 20% tem acesso fora do quintal ou complexo habitacional e outros 20% não dispõem de nenhuma casa de banho ou latrina. 

Segundo a pesquisa, mais de três quartos (77%) dos residentes urbanos têm casa de banho ou latrina no interior das suas residências ou no quintal, mas apenas um terço (24%) dos residentes da zona rural dispõe de casa de banho ou latrina. “Mais de quatro em cada 10 residentes da zona rural (42%) disseram não ter acesso a casa de banho ou latrina”, diz. Acrescenta de seguida que “cerca de nove em cada 10 residentes de Luanda (87%) têm acesso a casa de banho ou latrina no interior da sua residência ou quintal. A situação é crítica nas regiões do Centro (40%) e do Sul (44%)”. 

A energia eléctrica é outro problema que carece de ser ultrapassado. Diz o estudo que mais de quatro em cada 10 angolanos (44%) vivem em residências sem ligação a rede pública de electricidade. 

Afirma que apenas um em cada seis angolanos residentes na zona rural (16%) vive em residência com ligação a rede pública de electricidade, comparando com três quartos (74%) de residentes das zonas urbanas. No entanto, os residentes de Luanda (84%) têm mais do que o dobro de chances de dispor de ligação eléctrica da rede pública nas suas residências comparativamente aos residentes das regiões Leste (37%), Sul (38%) e Centro (38%). “Os residentes de Cabinda também disfrutam de uma elevada taxa de electrificação (83%)”, concluem. 

O Pais

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