“Desejo que o cinema angolano se torne numa indústria em que possamos viver dela”

Manuel Terramoto é produtor e realizador de cinema há cerca de 20 anos e tem trabalhado afincadamente. A sua maior alegria seria ver a indústria cinematográfica a funcionar, de modo auto-sustentável, e que os fazedores pudessem viver do seu trabalho, como é prática noutros países

Manuel Terramoto engrenou nesta área pela sua curiosidade e autodidactismo, que lhe levaram por vários caminhos neste que é o mundo cinematográfico angolano. Entre 1998 a 2000 deu os primeiros passos como gestor do antigo Cine Ngola, com o domínio que tinha nesta área.

Através desta, o também membro da Associação Angolana de Profissionais de Cinema e Audiovisuais (APROCIMA), criou uma produtora, arrendou uma sala naquele espaço, mas que pela carência de produção nacional e também por o Estado ter parado de importar filmes, não teve muitos êxitos.

O realizador, ainda assim não desistiu dos seus planos, continuou a trabalhar e a estudar mais sobre realização.

Foi assim que em 2007, respondendo a um convite de um grupo teatral, realizou a sua primeira longa-metragem intitulada “De quem é a culpa”, ficção e longa- metragem que retrata a estória de uma rapariga, que ao mesmo tempo namorava com um delinquente e um chefe da Polícia. A jovem morre durante um tiroteio entre ambos, no decurso de uma operação.

No ano seguinte realizou o filme “Labirinto de amor”, uma estória que tinha como pano do fundo a delinquência. Avançou que a película continua inédita, isso porque na altura se fez apenas uma pré-estreia do trabalho, com imagens brutas, para actores e familiares. O facto deveu-se aos custos para a sua conclusão, relacionados com a dobragem, correcção de cores e outros.

Uma das características nos seus trabalhos, conforme disse, é a inclusão de cenas de amor, para tornar o trabalho mais atractivo e abrangente.

Capacitação

Para o melhor desempenho do seu trabalho, fez cerca de 10 formações intensivas, entre 2007 e 2011, ligadas à produção e realização de cinema, como de orçamento de projectos, guionismo, cenografia, actuação e interpretação. Beneficiou ainda de outras realizadas no Festival Internacional de Cinema em Luanda, entre 2008 e 2011, que contribuíram para a melhor capacitação do seu trabalho.

“A partir mesmo das formações, fazíamos já realizações e produções, o que facilitou depois continuar com os trabalhos. Ganhamos traquejo, por isso, conseguimos assumir produções de grande vulto no cinema, tanto documental como de ficção”, enalteceu.

Pelo conhecimento tido na área, ministrou ainda palestras de formação de actores. Depois desse processo, devido à falta de apoio para produções e realizações de forma independente, colaborou em vários trabalhos, conforme aconteceu em 2015 com a película “Misteriosa tatuagem”, em que foi assistente de produção e actor secundário.

“Naqueles casos de o colega não ter equipamentos, nós entramos em acção e colaboramos. No referido filme, como faltava um actor, fui convidado a interpretar e acabei por fazer as duas coisas. Dava assistência ao meu colega e também actuava. Como sabe, para realizar é preciso dinheiro, e só o faz quem tem”, constatou o também docente.

Objectivos no cinema

Como cineasta angolano pretende ver o mundo cinematográfico desenvolvido, a tornar-se numa indústria, conforme acontece noutros países, e que os fazedores possam viver do seu trabalho. Por esse e outros motivos, disse estar preparado para responder ou trabalhar em parceria com o Estado, em actividades/projectos administrativos que visem desenvolver o mundo cinematográfico em Angola.

“Sou realizador e produtor, gostaria de dar o meu contributo para ver a área a funcionar. Há condições para isso, como belas paisagens, grupos teatrais onde vamos buscar os actores. Dinheiro também tem, só que não é canalizado. O meu desejo mesmo é que o cinema se torne numa indústria, para que possamos viver dela”, apontou.

Projectos em carteira

Tem vários projectos em carteira, como a película “As três alunas contra os monstros da sujidade”, ficção e longa-metragem infantil, “Caminhos do Ébano” (documentário- ficção de longa metragem), entre outros, que pretende executar, mas a falta de apoios tem sido uma grande barreira para o seu trabalho.

“Muitas vezes o orçamento de Hollywood nos assusta. Os custos estão muito ligados ao mercado de cada país. Por isso, apelo que apoiem o cinema, porque nós temos projectos que podem engrandecê- lo, até porque não custa muito caro. E assim é possível recuperar o valor investido, pelo movimento e projecção dos trabalhos de realização”, esclareceu.

Para o desenvolvimento do cinema no país, defende a criação de linhas de crédito, um fundo para reforçá-lo com taxas a cobrar pela exibição de filmes, a gestão de salas de cinemas estatais que devem ser geridas pelas administrações e exibirem unicamente filmes nacionais.

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