Orfanato “Não há Órfão de Deus” pede ajuda para obtenção de água

Por causa da pandemia da Covid-19, o orfanato “Não há Órfão de Deus” compra quatro mil litros de água potável a 12 mil Kwanzas, quando anteriormente custavam seis mil Kz, situação que dificulta o processo de higienização, segundo Albertina Kapitango, coordenadora do centro

O centro de acolhimento “Não há Órfão de Deus”, localizado em Luanda, no distrito urbano do Zango IV, junto da “paragem das garrafas – Luanda Limpa”, tem enfrentado dificuldades na obtenção de água potável. Apesar dos abastecimentos gratuitos em tempo de Covid-19, ou a preço mais baixo que a imprensa tem vindo a noticiar, esta instituição não beneficiou de nenhum e tem comprado mais caro a água.

“Os quatro mil litros de água passaram a custar 12 mil, anteriormente eram seis mil Kwanzas. Para além da água, constam entre as dificuldades o gás de cozinha, que apesar de ser comprado a mil e 200 Kz, costuma ser difícil de adquirir e os valores para aquisição destes bens tem sido dado por mim e por um padrinho ou madrinha”, disse, Albertina.

Porém, algumas vezes a situação representa um constrangimento, “nem sempre tenho vontade de pedir, apesar de que as pessoas têm sido sensíveis, porque reconhecem o trabalho que desenvolvo, mas, ainda assim, não me sinto bem em ligar quase sempre para pedir ajuda”, desabafou.

O orfanato está a criar mecanismos de obtenção de uma forma de auto-sustentabilidade, sendo que têm jovens de até 23 anos que não têm condições de fazer algum trabalho rentável para o seu próprio benefício ou do centro.

Formação profissional é algo que poucos têm. Foram formados por iniciativa da coordenadora, que procurou alguns centros e negociou, a preço baixo, mas o seu ordenado não é suficiente para beneficiar a todos.

Precisa-se psicólogo permanente

O orfanato também precisa de um psicólogo, para consultar pelo menos duas ou uma vez por semana, tendo em conta que as crianças chegam ao local com muitos conflitos internos. Algumas vezes recebem estudantes de psicologia que vão ao local fazer estágios, mas não são permanentes.

Albertina Kapitango explicou que o orfanato conta com o apoio da Casa Civil do Presidente da República, do MASFAMU, da comunicação social, e de individualidades particulares.

Em termos de alimentação, necessitam sempre, para manter a reserva e apoiar as situações pontuais. O orfanato controla 96 crianças, entre os quais 53 interna e 43 externas, tem ainda registadas 19 crianças vivendo com VIH/ SIDA e 51 mães soropositivas, que também são apoiadas com cestas básicas pela instituição.

O orfanato está dividido em duas casas, sendo uma das meninas e outra dos rapazes. Para além disso, há ainda uma terceira casa onde pretendem acolher os recém-nascidos, mas ainda não é propriedade do centro.

Como surgiu o “Não há Órfão de Deus”?

Albertina Kapitango, também conhecida por “única filha”, carinhosamente chamada no orfanato de “mamã Beth”, tem 40 anos e é mãe de dois filhos. Albertina já foi uma jovem perdida no mundo das drogas, prostituição e nudez, e pela “graça de Deus” e de muitos activistas sociais como Adelino Caracol, Kanguimbo Ananás, Marta Santos, Walter Cristóvão, entre outros, conseguiu deixar este mundo.

De acordo com mamã Beth, em 2004 entendeu que a falta de ocupação e de conhecimento faz com que o cidadão se perca nos vícios. Por isso, no mesmo ano decidiu dar vida ao projecto “não desista da arte”, com o objectivo de ajudar “as pessoas perdidas, para chorarem e desabafarem se fosse necessário, a saírem do mundo da prostituição e das drogas, através da arte”.

Ainda em 2004, Albertina Kapitango fundou o orfanato “Não há Órfão de Deus”, porque recebiam muitos órfãos de pai ou de mãe, incluindo crianças cujos progenitores ainda vivem. Pelo facto, defende que o abandono materno também tem vindo aumentar consideravelmente. Neste mesmo ano, passou a ajudar crianças órfãs, necessitadas, que vivem com VIH/SIDA, mães soropositivas e portadores de deficiência. “Toda a pessoa que batesse à porta do orfanato e mostrasse estar aflita, nós apoiámos. Primeiro com oração, ensinamento e cesta básica. Toda a ajuda que recebemos no centro é repartida, porque muitos beneficiários não residem aqui, por conta do espaço”, conta.

Albertina Kapitango disse que em função da sua história de vida, acredita que é difícil ter um parceiro, pelo facto opta em viver apenas com os filhos. Mas a relação com a sua família biológica é salutar, apesar de não se verem regularmente. Considera-a saudável em relação aos anos passados, em que muitos acreditavam que os tinha abandonado.

“A minha mãe conta que desde sempre tive o lado acolhedor, mas fazia de forma inconsciente, porque quando as minhas amigas eram expulsas de casa, por algum problema, era eu que as acolhia”, frisou.

Mamã Beth afirma que sempre que for necessário vai continuar a contar a sua história, no sentido de mostrar aos jovens que para Deus tudo é possível e todos os cidadãos podem ajudar o Governo a desenvolver um determinado projecto, sobretudo os jovens, ao contrário de estarem a fazer críticas negativas.

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