Adolescentes viram pedintes para sobreviver

“É arriscar ou morrer”, disse uma das adolescentes, de 16 anos de idade, gravida de sete meses, ao jornal OPAÍS, no momento em que vagueava pelos quarteirões da centralidade do Kilamba à procura de alimentos. Apesar de se ter montado nesta centralidade uma cozinha comunitária para atender os mais necessitado, situações como esta ainda são comuns

Foto: Nambi Wanderley

A adolescente, encontrada a vaguear pelo Kilamba, disse a OPAÍS que prefere “morrer” pedindo a roubar, ou a não tentar. Se não pedir, não terá o que dar de comer às suas duas irmãs mais novas que a acompanham diariamente nessa jornada. Atendendo ao seu pedido, optamos por identifica-las pelos nomes fictícios de Ângela, Joana e Bela.

O trio vive numa moradia de chapas de zinco, vulgo bate-chapa, erguida num terreno que os seus pais estão a “vigiar” para inibir evasões, no bairro “Cinco Fios”, arredores da centralidade do Kilamba.

Ângela, a mais velha das três, conta que em sua casa vivem sete pessoas. Além dos pais, são quatro meninas e um rapaz, todos irmãos. O membro da sua família mais novo tem oito meses de vida.

Ela, a filha mais velha, estuda a 7ª classe e ficou gravida em Novembro do ano passado, ao se envolver com um jovem de 21 anos de idade. Ambos residem no mesmo bairro, mas a família deste não está a cumprir a promessa de que prestaria assistência necessária para a mãe e a criança.

“Estou gravida de sete meses e até ao momento só fiz uma consulta pré-natal, das quatro recomendadas. Não recebo apoio da família do jovem de 21 anos de idade que me engravidou. Desde a altura que soube que estava gravida, só me deu cinco mil kwanzas e desapareceu”.

A vida da sua família já era bastante difícil antes da chegada ao território nacional do novo Coronavírus, porém, com as medidas de prevenção e de combate vírus, a situação agravou-se muito mais.

A jornada que realizam na cidade do Kilamba nem sempre é finalizada com êxito e quando isso acontece passam o dia sem comer. Joana, de 14 anos, não se lembra da última vez que teve comida em casa para a família se alimentar em abundância. Disse que o pai trabalha numa empresa de segurança privada, no bairro Benfica, distrito de Belas, e nem sempre consegue proporcionar-lhes alimentação.

De acordo com a adolescente, há três meses que o chefe da família não leva nada para casa, desde que começou o confinamento. Está há mais de um mês a trabalhar em regime de quarentena.

“Nós não conseguimos ver o nosso pai e a nossa mãe, que podia nos prestar assistência, ou trabalhar, anda doente há algum tempo. Para sobrevivermos, temos de pedir aqui na centralidade do Kilamba, onde muitos atendem aos nossos pedidos por pena”, lamentou.

“Se dinheiro para comer não temos, quanto mais para comparar máscaras”

A observância das medidas de segurança e prevenção contra a Covid-19 está distante para esta família. Mesmo sabendo dos riscos que correm, uma vez que para andar pelas ruas é necessário o uso obrigatório da máscara e lavar as mãos constantemente, as meninas disseram que só não a usam por falta de possibilidades.

“Se dinheiro para comer não temos, quanto mais para comprar uma máscara? Também não podemos ficar em casa a morrer de fome. Sabemos que estamos a correr perigo ao andar pelas ruas da centralidade do Kilamba. Vamos fazer como?” Questionou a menina lacrimejando.

Bela, por sua vez, recordou o dia 1 de Junho de 2019 como uma data memorável, por ter festejado na escola com os seus colegas. Uma festa que foi abortada este ano, devido à Covid-19 que assola o país e o mundo.

Questionadas sobre um apelo a enviar às autoridades, responderam: “queremos que o Governo faça chegar comida a todas as crianças que não têm o que comer”.

Elas temem com a possibilidade de as aulas reiniciarem no dia 13 de Julho, porque, segundo dizem, as suas escolas não têm condições mínimas de prevenção, como água corrente para a lavagem frequente das mãos.

Pai violava a filha com o consentimento da mãe

Questionado sobre o crime que mais o chocou nessa empreitada no INAC, Paulo Kalesi, entristecido, revelou que foi o caso de abuso sexual de uma menina. A própria se dirigiu ao INAC acompanhada de duas colegas para denunciar o autor: o seu próprio pai.

Conta que tudo aconteceu porque o INAC foi dar uma palestra na escola onde ela estuda. Depois de a menina ouvir tudo contou às amigas o que pai fazia com ela e assim decidiu quebrar o silêncio.

“A menina disse que o pai começou a abusá-la muito cedo e quando atingiu os 12 anos começou a penetrar. O que aconteceu reiteradas vezes até aos 14 anos”, recordou.

Paulo Kalesi conta que quando inqueriu a mãe da menina se sabia o que se estava a passar, obteve desta a resposta positiva. “A mãe sabia, mas dizia para não dizer nada para não manchar o bom nome da família”, contou.

“Paulo Kalesi afirmou que foi um crime que o abalou bastante. “Eu não estou a imaginar um pai a dizer a filha só mais uma vez e a mãe a dizer para não manchar o bom nome da família não diga nada”, lamentou.

Por outro lado, Paulo Kalesi contou que o pai da menina é uma pessoa letrada e bem constituída. Na altura em que a denúncia chegou ao INAC ela tinha 15 anos. “Eu digo mais, quantas crianças devem estar a passar por isso? O pai, que ao em vez de ser o herói da criança, acaba por ser o seu carrasco”, concluiu.

“Temos conhecimento de crianças que buscam comidas no contentor de lixo”

Em entrevista exclusiva a OPAÍS, o diretor-geral do Instituto Nacional da Criança (INAC), Paulo Kalesi, disse ter informações sobre crianças que buscam comida em contentores do lixo na centralidade do Kilamba. O assunto já foi tema de uma reunião que mantiveram com a Administração da centralidade.

“O apuramos que no Kilamba é um facto. Há realmente crianças e adultos nos contentores a recolher a recolher alimentos. A informação que nos foi passada é que a presença das crianças nos contentores já vem de há algum tempo”, frisou. Acrescentou de seguida que “primeiro recolhiam material que devia ser reciclado, como bidons, entre outros. E com o surgimento da pandemia foram recolher, para além desses materiais, comida”, contou. Disse que há senhoras que se deslocam para estes locais com os seus filhos. “O que acontece é que o povo do Kilamba é muito mais solidário. As pessoas aperceberam-se que vão para lá pedir ajuda e os moradores atendem. Então, invadiu-se. Aquela população vem de Viana, Cacuaco e Kilamba Kiaxi”, detalhou.

Por outro lado, Paulo Kalesi fez saber que na conversa que tiveram com o administrador tomaram conhecimento de que há um estudo a ser feito sobre a proveniência das crianças.

Portanto, se na verdade a criança for de uma família vulnerável, vão atá à sua fazer o castramento da real condição da família (um inquérito social) a fim de inseri-la no projecto de distribuição de cestas básicas e outros para não se deixar as crianças irem à rua.

Disse que há algumas crianças são de famílias estáveis e vão à rua a convite de amigos que não têm a mesma possibilidade. Há ainda outros que o fazem por orientação de adultos. Da Administração do Kilamba, o director do INAC disse ter recebido a informação de que mesmo com a cozinha comunitária a distribuir refeições gratuitamente, muitas crianças preferem os contentores de lixo. Isto é, alimentam-se na cozinha e depois voltam aos contentores ou a pedir em cada edifício.

“Aqui há um trabalho que continua a ser feitao, de sensibilizar as famílias de que não precisam ir recolher. Abriu-se a cozinha comunitária, está-se dar cestas básicas às famílias”, frisou.

De acordo com o nosso entrevistado, muitas das crianças não residem nos arredores da centralidade. “Elas vêm de fora à procura de materiais reciclados e pedindo esmolas”, realçou.

 

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