Dondo: Pior que o fim da Eka, só a Covid-19

Dondo: Pior que o fim da Eka, só a Covid-19

As páginas de cidadãos naturais ou não do Cuanza- Norte estão cheias de comentários de toda a espécie. A grande maioria ainda não “encaixou” o duro golpe de em 2020 verem encerrada a maior indústria da vila histórica que continua a os tentar o título de capital económica da província. 

Há quase meio século, a Eka era tão-somente uma espécie do ex-libris do Dondo, chegando algumas gerações a ter nascido sob romances que a dada altura se cruzam tendo a marca a meio, aliás, não é por mero acaso que ela é também conhecida como sendo a “loira tropical”. 

A Eka está para o Dondo aquilo que a Cuca está para o país, quando até gentes nas longínquas terras asiáticas lembram-se de uma das mais famosas marcas de cerveja “made in Angola”, que a própria fabricante começou a chamar de “património cultural do país”. 

SF, jornalista e filho da terra, tão logo ouviu o anúncio do director da maior indústria da província, de que a continuidade da fabricação da marca se tinha tornado insustentável, escreveu: Daqui a pouco vai a enterrar um dos maiores orgulhos dos kwanza-nortenhos, a fábrica de cerveja Eka, que com a sua morte deita para o precipício centenas de jovens e para a desgraça milhares de mamãs que dependem da venda desta bebida, para o sustento das famílias. 

O escriba prossegue as suas lamúrias afirmando ser “incapaz de travar a vossa morte, apenas e amargamente antecipo a minha dor e consternação. Adeus Eka. Adeus nossa bandeira, até quando equina?”. Mais optimista que o primeiro é MC, que escreve: “duvido que ela possa morrer. Em tempo de guerrilha, os capacetes amarelos foram sempre os guardiões deste país. UNITA/MPLA todos de mãos dadas na defesa da cervejeira. Agora morrer seria uma desvantagem para as maratonas (…) que falte pitéu na mesa dos cidadãos e nunca a birra”. 

Outro utilizador das redes sociais, DS dedica ao anúncio um longo texto cujas palavras que mais se repetem nele são “salvemos a Eka”. O internauta escreveu no seu mural que, inaugurada em 1972, a Eka cessou as suas operações a 01 de Junho do ano em curso. Ao cabo de 48 anos de funcionamento ininterrupto, nem mesmo o ribombar dos canhões que ecoaram durante o conflito armado a fizeram parar. De coluna militar, a partir do Dondo, seu santuário, a Eka trilhava as estradas de Angola e chegava ao Moxico e outras províncias, sem receio de riscos de ataques armados. 

DS afirma que a marca sempre calcorreou as diferentes paragens deste imenso país. “De canoa ou de barco pelo rio Cuanza, a partir da vila do Dondo, então sitiada (…) a Eka fazia-se presente às mãos de muitos angolanos que residiam na capital do país, Luanda. De IFA ou de caixão vazio, acondicionada em sacos ‘burro’ ou em grades de madeira ou de plástico, com o aval de Sô Pires ou de Maria Kuila (antigos director e subdirectora da empresa), a Eka continuava a sua marcha imparável”. 

Era pois possível construir uma extensa reportagem apenas baseada no conjunto de escritos que lhe foram dedicados pelos filhos e aficionados da bebida. 

A cervejeira Eka, situada no Dondo, município de Cambambe, província do Cuanza-Norte, suspendeu a produção este mês, segundo os seus responsáveis em consequência do aumento dos custos operacionais e a queda de lucros. 

A notícia foi dada pelo seu director- geral, Marc Mayer, que aproveitou a ocasião para o anúncio de que com a operação de encerramento 160 trabalhadores, maioritariamente jovens, iriam engrossar a vasta lista de desempregados. Na verdade este é o número de desempregados de postos directos, pois de forma indirecta, o fim da produção manda para a “rua das amarguras” milhares de pessoas, entre revendedores e transportadores, assim como pode afectar o “chamariz” de uma fiel clientela de restaurantes e barracas de comes e bebes, capazes de descobrir a diferença de paladar entre a bebida engarrafada no Alto-Dondo e a proveniente de outras paragens do país. 

Entre estes “fies apreciadores” esta FF, que diz ser capaz de “olhos vendados descobrir pelo paladar peculiar o sabor da “loira tropical” engarrafada no Dondo, que adoptou ao longo de quase 30 anos como “fiel companheiro nos seus momentos de folguedo”. Uma espécie de cultura, para um tradicional apreciador da cevada das terras quentes do Dondo. 

“Duvido que a Eka vinda de outras fábricas supere a do Dondo. Já fizemos a experiência e não funcionou. A marca inundou a Feira do Dondo com outras congéneres, mas um bom cacusso do rio Cuanza regado de uma Eka fresquinha do Dondo tem outro toque”, conta o apreciador. 

Passa a entreposto de venda 

A infra-estrutura vai ser transformada em entreposto comercial dos produtos do grupo Castel Angola, que detém actualmente a gestão da Eka, em simultâneo com as marcas de cerveja Soba Catumbela, Cuca e Cobeje. A marca do Dondo passa doravante a ser produzida em outras unidades fabris sedeadas em Luanda e Benguela, e detidas pelo grupo. A medida faz parte da estratégia do Grupo Castel. 

Segundo a empresa, a decisão decorre do facto do mercado tradicional da Eka (provinciais do Cuanza-Norte, Luanda e Malanje) terem perdido capacidade de absorver a produção da marca, encontrando- se em stock mais de 50 por cento do último lote fabricado. 

Marc Mayer afirmou à imprensa que, entre fazer a Eka na sede do município de Cambambe e trazer as outras marcas, incluindo do exterior do país, é muito mais rentável a segunda opção. 

É economicamente vantajoso importar a cerveja que manter os custos actuais de produção, sendo a redução da disponibilidade da matéria-prima e a garantir de sobressalentes para reposição de componentes avariados nos equipamentos o maior calcanhar de Aquiles. 

A última esperança 

O governador provincial do Cuanza-Norte, Adriano Mendes de Carvalho, solicitou, na Quarta-feira, 3 de Maio, em Ndalatando, à direcção da Eka “uma moratória”, antes da consumação da decisão prometendo fazer “consulta aos organismos centrais de tutela”. 

Na reunião estiveram presentes, para além da direcção da Eka, representantes dos trabalhadores através da estrutura sindical. O sindicato tem estado a “duvidar” da veracidade dos dados apresentados pela direcção da cervejeira como sendo a principal razão para o fim do fabrico da marca no Dondo. 

O próprio Governo liderado por Adriano Mendes de Carvalho é outro dos que se manifesta contra o encerramento da fábrica, devido às suas implicações na vida dos munícipes e na arrecadação de impostos para aquela circunscrição do território nacional, por si já com o tecido empresarial profundamente corroído nos últimos anos. 

Até ao último dia útil de trabalho da semana finda, as esperanças estavam depositadas em “intervenção de última hora” que pudesse vir dos Ministérios do Comércio e Indústria e da Economia, assim como de outras estruturas centrais do Governo, na esperança de se salvar a Eka do encerramento e salvaguardando consequentemente os postos de trabalho e os interesses económicos e financeiros em jogo. 

Inaugurada em 1972, a Eka beneficiou em 2008, de um investimento de 30 milhões de dólares, que permitiu a modernização da unidade fabril através da instalação de uma segunda linha de enchimento, com um sistema moderno e automatizado. 

A gestão do empreendimento cervejeiro foi adjudicada ao Grupo Castel Angola, por via de um contrato de concessão, passando aquela corporação empresarial a deter, deste modo, todas as principais marcas de cerveja nacional. 

Segundo a Angop, o grupo gere actualmente 12 fábricas de bebidas em Angola e produz cerca de 16 marcas, nomeadamente Cuca, Nocal, EKA, N’gola, Doppel, Beaufort, 33 Export, Booster, XXL, Coca-Cola, Fanta, Sprite, Schweppes, Youki, Top e Vimto, com uma variedade de formatos que vai desde garrafa, lata, pet, descartável e barril. 

Na Eka, a Castel Angola detém 46 por cento das acções, enquanto um grosso de accionistas privados detêm 50 por cento e os restantes 4% mantêm-se sob controlo directo do Estado que, entretanto, os colocou nas listas de activos a alienar no âmbito da ampla privatização do seu património. 

Consta que, fruto de uma baixa de 40 por cento nos níveis de produção, em consequência da paralisação da sua primeira linha de enchimento, a empresa reduziu a sua capacidade de produção de 55 mil litros de cerveja por hora para 27 mil litros/ hora que vinha produzindo até à data do anúncio do fim da produção o mês passado.