“Gostei deste bloqueio da Covid-19 por me ter permitido focar na minha criação artística sem distração”

“Gostei deste bloqueio da Covid-19 por me ter permitido focar na minha criação artística sem distração”

A nossa interlocutora é uma artista que explora meios como a impressão, fotografia, vídeo, têxtil e performance. Descendente de angolanos, reside na África do Sul. Pela segunda vez vai participar de uma mostra colectiva virtual em Angola, desta vez, sob iniciativa do LabCC [Laboratório de Crítica e Curadoria], designada “Qual futuro”. Com várias aspirações conta-nos nesta entrevista entre várias coisas, sobre o seu novo trabalho em relação ao seu olhar para a ideia de bruxaria e a sua associação com as mulheres, e anda para a mitologia e suas complexidades. O período que o mundo vive face à Covid-19, foi outro tónico da conversa

O mundo hoje vive uma época bastante preocupante, em razão da Covid-19 e por conta disso fomos todos obrigados ao isolamento. Enquanto artista que benefícios e malefícios esse período afectou na sua criação artística?

Sinceramente, gostei deste bloqueio causado pela pandemia Covid-19. Isso deu-me mais tempo para me focar na minha criação artística sem distração. No entanto, eu sei que muitos artistas estão preocupados com sua renda. É mau em termos de viagem, sei que vários artistas tiveram de cancelar ou adiar suas residências por causa da pandemia. Muitos artistas estão preocupados com dinheiro, infelizmente.

Entretanto, podemos ver que sairão novidades depois deste confinamento.para os apreciadores da sua arte. Que iniciativas artísticas prevê apresentar tão logo haja a reposição social?

Eu vou continuar a desenvolver a minha nova série de trabalhos. Vou olhar para a ideia de bruxaria e sua associação com as mulheres, vou olhar para a mitologia e suas complexidades. Tenho tecidos e contas de origem, bem como materiais associados à feminilidade. Vou incorporar a impressão de nas obras igualmente.

Soube que tem trabalhado nas memórias do seu pai ,um ex-guerrilheiro do Batalhão Bufalo. De que forma vai apresentar estas memórias em que trabalha?

A história do Comando Búfalo desempenhou um grande papel na vida da minha família e na minha em particular. E ela ocupa o centro da minha prática e reflexão artística. Não estou a tentar recontar a história, mas arquivar e relembrar o lado pessoal dessa história. As pessoas que estiveram envolvidas no Comando Buffalo, especialmente os angolanos, têm histórias mais complicadas, existem muitos estereótipos associados a eles, a minha arte prática, questiona estes estereótipos para tentar revertê-los.

Qual foi a participação de seu pai neste grupo guerrilheiro?

O meu pai foi soldado. Ele contou-me que o seu envolvimento aconteceu por acidente, quando a guerra escalou em Angola em 1975. Tinha sido instruído pelo seu pai no sentido de procurar o irmão que estava desaparecido. Ele foi direccionado a Mapupa, onde se encontravam o exército sul-africano e a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). O meu pai ofereceu-se como motorista, que estavam a precisar na altura para colectar comida, não apenas para os soldados, mas para outras pessoas que lá estavam. Foi dessa forma que começou sua carreira militar e o seu êxodo do seu país de origem.

Vai participar da exposição virtual “Qual Futuro?” com outros artistas angolanos. Como foi que surgiu o convite?

Fui contactada por um dos curadores, Marcos Jinguba. Eles encontraram o meu trabalho quando participei da exposição Taxidermia do Futuro, que decorreu em Luanda no final do ano passado, com curadoria de Paula Nascimento e Bruno Leitão. Portanto, esta é a minha segunda exposição em Luanda, apesar de virtual.

O que vai apresentar nesta mostra colectiva virtual?

Vou apresentar um novo vídeo, que questiona o modo como aceitamos as coisas como verdade.

Como caracteriza a arte angolana, sobretudo na disciplina de artes plásticas?

Devo dizer que tem se saído muito bem. Quando fui estudante lá, poucos artistas eram conhecidos a nível internacional, e os que eram conhecidos, a maior parte deles era do sexo masculino. Hoje já há mais artistas jovens e mais mulheres, como a Keyezua e Yola Balanga. É óptimo ver espaços como o LabCC [Laboratório de Crítica e Curadoria] que é dirigido por jovens que estão a criar oportunidades para outros artistas e agentes das artes. É simplesmente incrível, porque o cenário artístico de Angola precisa destas iniciativas. Eu só gostaria que houvesse mais financiamento tanto do sector privado quanto do público.

O que projecta para apresentar em particular a Angola de forma individual a curto-médio ou longo prazo?

Pretendo fazer uma exposição individual em Angola e me envolver mais com o público local. Participar de diálogos e workshops que exploram a memória colectiva e a amnésia colectiva resultante de traumas vividos pelas guerras. E também as histórias partilhadas por Angola e a sua diáspora.

Em que outros projectos está a trabalhar?

Acabei de participar de uma apresentação com duas mulheres, ao lado da artista namibiana TuliMekondjo na galeria Guns & Rains Art, em Johannesburg. A exposição intitulada The Boards of Memory (Fronteiras da Memória) explora as nossas duas histórias, as semelhanças e as memórias. TuliMekondjo nasceu no Cuanza-Sul, a sua mãe era soldado da SWAPO. Essa exposição vai viajar para a Namíbia e será exibida na The Project Room- Namibia e espero que algum dia chegue a Angola.

Quem é Helena Uambembe?

Helena Uambembe é uma artista que se identifica como mulher. Ela explora vários meios, como impressão, fotografia, vídeo, têxtil e performance. Helena Uambembe reivindica a herança e identidade angolana nas suas performances por conta de sua experiência distante e próxima de Angola. Uambembe acredita que é de grande importância contar histórias africanas pessoais da maneira mais real e honesta possível. Uambembe espera e sonha com um mundo melhor, especialmente para as mulheres negras.