O Rei vai nu! E agora?

A pandemia que atormenta o globo pode constituir um bom álibi para justificar más políticas de anos, em vários países. No nosso, não há como esconder as políticas desastrosas em diferentes áreas (para não dizer todas) e, por conseguinte, o covid-19 não tem como funcionar como álibi.

Como falar, perspectivar o pós-covid num país não da, mas “de tanga”, fruto do desvario de anos? Sim, porque o que a pandemia veio evidenciar não me parece que tenha sido, como dizia há dias a CEAST em comunicado, as fragilidades do sistema de governação – só assim terá sucedido para quem anda(va) distraído.

O que a pandemia permitiu foi revelar que a extensão da pobreza é bem maior do que se sabia ou pensava. O que a pandemia permitiu foi perguntarmo-nos como deixámos que a situação do nosso país, como é que a indiferença, a banalização da anormalidade tivesse chegado a este ponto? O que a pandemia permitiu foi destapar e desmontar que “o rei anda(va) nu” há muito tempo.

E que se o rei anda(va) nu, tal desviasse não somente ao rei mas também (e sobretudo?) ao seu séquito. Mas a pandemia também permitiu dar conta que quando o Governo quer (neste caso foi a necessidade absoluta, um imperativo que o levou a tal), faz, como é o caso do abastecimento de água promovido pelo Governo, ainda que estejamos aquém do desejável. Gente capaz, vontade e organização, é disso que precisamos há muito!!! Vem isto a propósito do encontro promovido pelo Presidente da República com a sociedade civil que se saldou na presença de cerca de centena e meia de presentes e oito intervenções (dito pelo próprio), para além da do próprio PR – depois do fuzuê do encontro, umas palavras se impõem.

Os intervenientes que supostamente terão representado as suas classes, categorias e/ou grupos profissionais e sociais (na verdade não precisavam de ter ido os demais presentes!) e que se desconhece como e quem os terá indicado como representantes do que disseram ser, apresentaram algumas ideias, propostas (uns melhores que outros quanto às intervenções; umas melhores que outras quanto às propostas propriamente ditas).

Ideias, há muitas, felizmente, mas tão importante quanto têlas é apresentar o COMO. O que de facto fazer está indissociavelmente associado ao como, e parece ser aí que se enquadra o anunciado Conselho de Concertação Económica – e aqui pergunto se não deveria ser antes um Conselho de Concertação Económica e Social, se considerarmos não somente a abrangência do económico como aqueles que de diferentes áreas integrarão o mesmo)? Temos mais um grupo de trabalho a somar a outros tantos e aos milhentos programas que pululam em diferentes quadrantes.  Quanto a estes últimos, parece-me ser útil a sua revisão por ser bem possível que alguns se cruzem – ou devo antes dizer se enredem e tropecem? Ainda relativamente ao (pós-) covid-19, tem-se dito que o mundo não mais será o mesmo. Se se referem à humanidade, a resposta é que as pessoas não vão mudar para melhor. E não é só por não acreditar em histórias da carochinha.

Será que a humanidade mudou depois das anteriores pandemias? As pessoas não vão mudar, a humanidade não vai mudar, a bondade vai continuar a andar de mãos dadas com a maldade, a justiça com a injustiça, as frustações, o ódio, a ira, a inveja, todo um caudal de sentimentos, emoções e pulsões continuarão a existir – para o bem e para o mal. O que vai mudar ou vai ter um crescimento vertiginoso serão as novas formas de trabalhar com uma maior aposta no teletrabalho, a inteligência artificial – muito do que até agora só se via nos filmes, vai passar a ser real, parte do quotidiano.

Neste país à beira-mar plantado, onde os professores nunca deveriam ter aceite trabalhar em escolas onde não houvesse água, sabão e papel higiénico – e refirome aos (quase) 45 anos em que isso sucede! – espero, no mínimo, por esta mudança. O conto de Hans Christian Andersen, O Rei vai nú, cuja leitura e representação aconselho vivamente, é universal e intemporal.

É importante neste momento relembrá-lo para não se cair na falácia do novo paradigma e acabarem por fazer o mesmo que no passado. E agora? Agora que a bajulação está mais sofisticada, está nas mãos (e nas mentes) dos que ainda conseguem agir com alguma isenção, buscar a almejada mudança para que o rei saiba quando vai nu. De preferência, trabalhar-se para que nunca vá nu!

Elisabete Ceita Vera Cruz

Professora e investigadora

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