Saudade de chegar

Saudade de chegar

A memória faz-se de acontecimentos, de coisas, de frases, de marcas. Faz-se de muitas coisas, incluindo de cheiros, do toque. E tudo isso pode ser saudade também, uma necessidade de reviver o tempo, o local, qualquer coisa.

Há a saudade “de pensar” e há a saudade “de sentir”, aquela mais física, em que sentimos mesmo o toque da pessoa que está distante, em que sentimos mesmo o cheiro, o sabor, ouvimos a voz. Esta é uma saudade terrível, embora muitas vezes reconfortante.

Mas há também a saudade de sentir e de pensar ao mesmo tempo, como a da evasão do lugar em que estamos, do reencontro com a liberdade da estrada, de fazer caminho sem contar o tempo, apenas querendo chegar quando for, com a certeza de um abraço que espera. E depois partir.

A cerca sanitária a Luanda começa a ser como um colete de forças para quem goste de ir além, para quem tenha a necessidade de ser feliz em Luanda saindo, como eu. Esta cidade não me basta, tem tudo, tem demasiado, falta-me a simplicidade e a carência que revela o ar puro, a cor das flores, a voz das árvores.

Falta-me chegar. Não há nada mais revelador do que chegar. É uma sensação de regresso à vida, de reencontro com a segurança, com a paz. É mesmo aportar. Chegar é a libertação da ansiedade, de uma certa incerteza, é deitar a mão a uma fruta no galho de uma árvore alta a que o pássaro não chegara primeiro.

Esta pandemia veio tirar-nos a sensação da paz encerrada no acto de chegar, ao encontro de um sorriso, de um abraço e até a um local onde nos enchemos de saudade do ponto de partida.