Semba para 2021

Nunca fui um bom dançarino. Confesso. Nem sei se ainda vou a tempo. Sempre que me encontro em apuros, num salão, ensaio uns toques para não comprometer a minha companheira. Os rapazes chamam aquilo de ‘um-dois’. Nem que fosse ‘dois-um’, não ficaria chateado. É com ele que me safo sempre que estou em apertos.

Por causa da minha debilidade dançante, sempre que passo pela estrada do Patriota, em direcção à redacção, sou tentado a olhar à placa publicitária de uma escola de dança. Com letras garrafais, que deve chamar a atenção de todos os ‘kinemas’, pode-se ler a oferta existente: venha aprender Kizomba, Semba e outras danças de salão.

A única vez em que estive próximo da tal escola foi no 60º aniversário de um dos meus mestres: Graça Campos. Quem dera se, na altura, tivesse já discado o número existente, talvez arrasasse em qualquer sentada no pós-Covid-19.

As danças de salão, que obrigam sempre uma exibição aos pares, são bonitas de apreciar. Os atentos olham sempre para os dançarinos. As passadas estonteantes dizem sempre algo.

Durante a pandemia da Covid 19, uma estação de TV exibiu uma reportagem em que, por causa do distanciamento, algumas das danças eram ensinadas com os casais afastados. Quem diria!

Não vejo como dar passadas distantes um do outro. Perde-se aquele sussurro nas orelhas quando o atrevido engatatão, às vezes, quer buscar o número de telefone. Ou mesmo uma pisadela quando um dos parceiros no célebre ‘Um-Dois’ não tem dotes suficientes para satisfazer o outro.

Não é em vão que é mais difícil pregar os olhos num concurso de danças de salão do que nas individuais. Mas, ainda assim, é manifesta a predileção dos angolanos pela dança individual. Trata-se de um vício que foge dos salões e se espalha noutros palcos, incluindo o político e desportivo.

O célebre ASA, de Joaquim Dinis, vai ter uma nova direcção: José Luís Prata corre sozinho. A Federação de Andebol vai a votos, falase também numa lista de consenso. Apenas na FAF existem já três candidatos, ou seja, o actual presidente Artur Almeida, Norberto de Castro e ‘Nando’ Jordão.

Apesar de termos evoluído em 1991 para um Estado que se quer de Direito e Democrático, há uma tendência de se olhar para as listas de consenso como melhores vias para se escolher os líderes associativos, religiosos e até políticos. Poucos são os que se predispõem a dançar com um parceiro, chamem-no concorrente ou outro nome.

Quando há poucos meses se defendeu a necessidade, por exemplo, de as universidades reencontrarem os seus reitores por meios mais democráticos, muitos esperavam que este retorno, à normalidade, fosse encarado como um desafio imediato, mas a realidade mostrou o contrário.

Nos últimos dias, tenho estado a tentar adivinhar como será a dança lá para os lados da Ho Chi Min. Prefiro olhar para 2021, como dizem os economistas, no âmbito de um projecto de médio prazo importante para os objectivos que se pretendem em 2022, a longo prazo, numa fase em que se acirram as divergências entre as várias partes da ‘Grande Família’ e com muita roupa a ser lavada, inclusive nas redes sociais.

Uma dança individual em nada contribuiria para melhorar a imagem, nem mesmo para fortalecer o slogan ‘melhorar o que está bem e corrigir o que está mal’. Mas mesmo numa competição aos pares, bons dançarinos serão necessários, a julgar pelas desqualificações intemporais que se vão verificando com alguns supostos bons passistas.

Luvas de guardanapos, esferográficas e até papel higiénico, num bolão de 17 milhões de Kwanzas pouco esclarecidos, quase que atropelam interesses, ao passo que pensões e negócios poucos claros também assombram outros potenciais contendores. Há quem ainda, depois de ter demonstrando sem convicção se pode ou não avançar, tenha de andar às voltas com acusações de fantasmas de um dos períodos mais negros da nossa história.

Seis meses já do ano de 2020, quando alguns vaticinam que em termos económicos ou até mesmo sociais pouco ou quase nada pode mudar por causa da Covid-19, no campo político pode significar para muitos a época de se começar já a ensaiar passadas para o festival de Semba de 2021.

Pela sua pomposa dimensão e os vastos salões de que dispõe, correr a solo pelas bandas da Ho Chi Min tem que deixar de ser uma prática para reforçar os poderes de quem pretenda, de facto, introduzir fortes mudanças. Riscar no chão com boas ideias, mesmo que seja com concorrentes e vencer, no fundo, acabará por ser um elemento importante para se consumar toda e qualquer mudança ou combates em curso.

As urnas, felizmente, têm o condão de consagrar dançarinos com poderes de facto, que não se compadecerão com qualquer perturbação de grupos e ainda permitem ultrapassar o pensamento dos que acreditam ter sido tudo possível apenas graças ao toque de Midas.

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