Educação, língua e discurso

Educação, língua e discurso

A língua portuguesa é um sistema, aliás, como todas as línguas, pelo que se recomenda o máximo rigor aos critérios consagrados pela norma, dada a complexidade da sua estrutura. Não é por acaso que o poeta, Virgílio Ferreira, venerado ficcionista português, dizia “da minha língua vê-se o mar”. Ou, se quisermos trazer para aqui o teólogo José Tolentino Mendonça: “as palavras mordem”. Quer um, quer outro, evocam dois pólos de prazer sensorial (visão e tacto), que, certamente, só o leitor atento saberá degustar.

O português concretiza-se num sistema complexo. Para ilustrar melhor, vamos para uma sala de aulas. O exemplo mais preciso é o do aluno que falta deliberadamente às aulas, condicionando a sua presença aos sumários. O estudante, ao tomar conhecimento do programa, escolhe os dias qua irá faltar às aulas e os dias que irá assistir às aulas. Não aparece nas aulas seguintes: I. Vocativo e aposto; II. Sujeito e predicado; III. Os advérbios (modo, lugar, tempo, exclusão, inclusão, etc.); IV. Coordenação e subordinação de orações; etc. Bastam os exemplos.

Sucede que, na lição acerca dos sinais de pontuações, particularmente da vírgula, o aluno decide entrar para a sala e assistir à aula. É um sumário que já lhe interessa. O “fugueiro” (de fuga, deserção, abandono e afins) irá confrontar-se com os seguintes cenários: I. Não saberá distinguir o vocativo do aposto numa frase, portanto, ficando impossibilitado de saber que estes elementos na frase devem ser separados ou isolados com a vírgula; II. Não saberá identificar que os advérbios “sim” e “não”, quando se apresentam independentes na frase, devem ser separados com a vírgula; III. Terá dificuldade de reconhecer as orações subordinadas, que, quando aparecem antes das subordinantes, devem ser separadas com a vírgula, etc. Será vã a sua presença na aula dos sinais de pontuação porque o português é um sistema que se concretiza em cadeia.

Conta-se uma história bem divertida dentro desta temática. Um homem muito rico, com a saúde precária, às portas da morte, agonizado no leito de um hospital, pediu uma caneta à enfermeira. Com a caneta na mão, o quase moribundo decidiu, então, redigir uma carta de transmissão dos seus bens, direitos e obrigações aos herdeiros. “Deixo os meus bem à minha irmã não ao meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres”. Sucede que o infeliz morreu antes de fazer a pontuação da sua habilitação de herdeiro.

O endinheirado não tinha filhos (herdeiros legítimos de primeiro grau), e o conteúdo do seu testamento ficou disponível para um grupo de interessados, nomeadamente, o sobrinho, a irmã, o padeiro e os pobres. Cada um, com vista a salvaguardar os seus interesses, pontuou a habilitação de herdeiro com o propósito de reverter o benefício para si. É hilariante ver as nuanças que o texto assume, mediante alterações de pontuação, de acordo com a vontade de cada interessado.

Para não cansar o leitor, não vamos trazer para aqui os resultados, leia-se pontuações, dos quatro matreiros (mesmos parágrafos e mesmas estruturas de corpo de texto), sujeitos a quatro interpretações distintas, encerrando uma lição: os sinais auxiliares da escrita, neste caso, as pontuações, fazem toda diferença na forma como se pode interpretar um texto. Há registos de querelas jurídicas onde o réu, acusado disso ou daquilo, safou-se pela formulação de um termo que, sendo uma sugestão, havia sido interpretado como afirmação. Dizia, e bem, Inácio Rebelo de Andrade, no seu livro, Especulações Vocabulares (última obra de uma carreira com mais de 50 anos de publicações), “as palavras não são apenas o que elas significam, são-nas também o que sugerem”.

João Papelo