Nós e os arquivos

O mundo se arquiva sozinho. Esta é uma verdade cada vez mais evidente, sobretudo com o advento das novas tecnologias.

Em Angola, a cultura de arquivar momentos, documentos, o que seja, não existe ainda. por um lado, talvez por sermos um país mais virado para a oralidade, e, por outro, porque a nossa história está tão regada de medo que guardar alguma coisa foi sendo perigoso.

Quem impôs o medo, entretanto, esqueceu- se qua a memória é coisa que não se apaga e que basta para termos estado vivos para deixarmos vestígios.

E o nosso país está cheio de vestígios, além de que houve sempre alguém a guardar algum documento, apesar do medo que imperava, apesar da ameaça.

Entretanto, ainda nos falta a fase em que os detentores destes arquivos pessoais percam o medo e os partilhem com o país.

Falta-nos a fase em que o Estado entenda quão importante é adquirir documentos, vestígios ou qualquer fonte histórica para organizar, dispor ao estudo e assim ir escrevendo a sua própria história.

O mundo assinala hoje o Dia Internacional dos Arquivos. E arquivos é o que mais falta ao país. De todo o tipo.

Para quem queira realizar um estudo no nosso país, o acesso aos arquivos é mais do que uma dor de cabeça. A documentação, ou não está reunida, ou não está organizada, ou simplesmente carece da famosa ordem superior para acesso. Ora, a não existência ou não disponibilização de arquivos é uma boa forma de o país andar às rodas sem avançar nunca.

O que se pode esperar, ainda, porque a esperança é teimosa, é que o Estado se lembre de começar a ensinar a importância do arquivo desde o infantário. É uma cultura que se tem de criar, é uma via que se abre para o futuro.

Mas se o Estado não o fizer, mais cedo ou mais tarde os seus agentes figurarão nos novos arquivos com muito má cara. Porque o mundo se arquiva sozinho, haverá sempre alguém que junte pontas soltas para escrever a história.

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