O comércio mundial em época de pandemia

O comércio mundial em época de pandemia

Manter o comércio aberto em tempos de pandemia tem sido uma tarefa árdua, convidando as pessoas e os países a se reinventarem. As últimas projecções apresentadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) revelam que o volume de bens e serviços transaccionados em 2019 aumentaram 0,9%, o que representa uma desaceleração de 2,9 p.p. em relação ao ano anterior.

Para 2020 estima-se uma contracção de 11%, sendo as economias avançadas as mais afectadas, com as exportações e importações a variarem -12,8% e -11,5%, enquanto nas economias emergentes e em desenvolvimento poderão variar -9,6% e 8,2%, respectivamente.

Entretanto, o desempenho negativo poderá ser considerado como uma situação pontual, sendo que para o ano seguinte estima-se uma recuperação das trocas comerciais, ao crescerem 8,4%.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) prevê uma queda entre 13% a 32% do comércio mundial de bens, durante o ano corrente, reflexo do impacto da propagação da COVID-19. Importa ressaltar que a contracção do comércio mundial de bens verificou-se também em 2019, quando registou-se uma variação de -0,1%, após expansão de 2,9% em 2018, impactado, essencialmente, pelas tensões comerciais, fundamentalmente, entre as principias economias (EUA-China; EUA-União Europeia).

Para 2021, as estimativas apontam para uma recuperação entre 21% a 24%, que dependerá por uma, lado da duração do surto e, por outro, da definição de políticas eficientes para impulsionar o comércio. Segundo a OMC, todas as regiões poderão sofrer quedas de dois dígitos nos volumes comerciais em 2020, sendo as exportações da América do Norte e Ásia as mais atingidas.

Para os sectores de cadeias de valor mais complexas, como o caso dos automóveis e produtos electrónicos, o comércio poderá cair de forma mais acentuada. Paralelamente, o comércio de serviços pode ser a componente mais afectada pela COVID-19 devido a imposição de restrições de transporte e viagens. No entanto, serviços de tecnologia da informação podem beneficiar-se nesta fase.

Relativamente ao sector de turismo e viagem, que inclui serviços como hotéis, restaurantes, turismo, operadoras e agência de viagens é sem dúvida o mais afectado, e a recuperação dos danos encontra-se sem data prevista. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) as estimativas preliminares apontavam para um declínio de 58% no turismo internacional em 2020, sendo que se a normalidade não se registar até o mês de Setembro ou Dezembro a queda agravaria para 70% ou 78%, respectivamente. Em termos numéricos, a Organização Mundial do Turismo (OMT) prevê uma perda entre 300 a 450 mil milhões USD nas receitas provenientes do turismo. Destaca-se que no primeiro trimestre, as receitas do sector registaram uma queda de 80 mil milhões USD.

Outra projecção avançada pela Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento (na sigla inglês, UNCTAD) revela que o comércio mundial de bens poderá apresentar uma redução de 3% no primeiro trimestre de 2020 em relação ao período homólogo. Entretanto, estima-se um agravamento durante o período seguinte, ao reduzir 26,9%, níveis nunca mais vistos desde a crise financeira global de 2009.

Os primeiros sinais começam a ser evidente com a maioria dos países a reportarem desempenhos pouco animadores do índice PMI que tem-se situado abaixo dos 50 pontos, o que reflecte uma deterioração das condições das actividades. Durante o mês de Maio, vários países apresentaram o índice PMI Serviço abaixo dos 50 pontos, apesar da recuperação face ao período anterior, como o caso dos EUA (37,5 pontos), Alemanha (32,6 pontos), França (29,4 pontos), Reino Unido (29 pontos), Japão (26,5 pontos), Índia (12,6 pontos) e Nigéria (25,3 pontos). A mesma tendência foi registada no PMI Composto.

Outro indicador que se tem ressentido com as limitações do comércio é a taxa de desemprego, que tem atingindo máximos históricos. Como exemplo, podemos tomar o caso do sector do turismo, que actualmente tem em risco cerca de 100 a 120 milhões de empregos directos, segundo a OMT.

A deterioração do comércio internacional deverá contribuir para a recessão económica mundial. Assim sendo, é necessário que a política fiscal, monetária e comercial sejam direccionadas para suportar os efeitos negativos e preparar as condições para uma potencial recuperação pós-COVID-19. Com os mercados abertos ao comércio e ao investimento internacionais a recuperação das economias poderá processar com maior dinamismo.