“Os que mais sofrem com o keynesianismo em Angola são os empresários”

“Os que mais sofrem com o keynesianismo em Angola são os empresários”

As contas do BPC estão no negativo e um ‘Plano de Resgate e Reestruturação’ (PRR) será implementado para salvá-lo, mediante despedimento de 1.600 trabalhadores e encerramento de 60 agências. Isso chega?

Primeiro, felicito o PCA do BPC por apresentar as contas e o ‘Plano de Recapitalização e Reestruturação’, em conferência de imprensa. É uma novidade no mercado financeiro angolano. Segundo, o BPC tem um problema muito profundo. O buraco é enorme, segundo informações do PCA e parece que o PRR é caro também, porque está acima de 1,5 mil milhões de dólares. Julgo haver duas soluções: a reestruturação e a solução técnica liberal, de economia de mercado, que é privatizar depois da sua reestruturação. Não há garantias que depois dessa reestruturação o BPC deixa de ser a discoteca dos políticos e amigos, cujo segurança é o governo e o dono é o povo, que não beneficia dos retornos do BPC.

André Lopes afasta a possibilidade da privatização, por entender que o Estado deve ter um ‘braço’ financeiro, como nos outros países. Em que ficamos?

A pergunta que faria, como economista liberal, é o que o governo faz com o BPC que não faria com os bancos privados, para além de projectos políticos? A melhor forma de revolucionar o sistema financeiro angolano para liberaliza-lo à concorrência e à competição é privatizar o BPC e o BCI. O governo podia arrecadar dinheiro para fazer reforma estrutural, acabaria com corrução, tráfico de influência e nepotismo no que é do Estado e o crédito mal parado pornográfico que existe no BPC deixaria de existir.

A privatização do BPC é solução de muitos problemas do Estado. A desvantagem é que deixa de financiar projectos político-partidários. O Estado deve focar-se nas suas verdadeiras funções. Se se ocupar dos bancos e outras empresas o país não se desenvolve. Portugal tem a Caixa Geral de Depósitos. É banco público. É o que mais problemas apresenta. As CPI´s anteriores levaram o presidente do banco ao parlamento, a ‘Operação Marquês’ envolve o banco público – Caixa Geral do Depósito.  

A União dos Pequenos e Médios Empreendedores de Angola pede ao Executivo a redução das taxas de juros, acesso ao crédito e às divisas, para a sobrevivência das empresas e dos empregos. Que solução aos empreendedores?

Preocupa-me muito a dificuldade dos empreendedores, sou defensor de quem cria riqueza, porque é o mais importante numa economia. Defendo o mercado e são os empreendedores que devíamos apadrinhar, estimular, no sentido de estimular esse bicho empreendedor a outras pessoas. Só há IRT, segurança, imposto industrial e predial, porque há empresários. São os mais importantes, mas são a classe que mais sofre com a intervenção do Estado na economia. Os que mais sofrem com keynesianismo em Angola são os empresários. O keynesianismo é uma tala, é um feitiço que foi posto em Angola, que deve ser arrancada. As pequenas e médias empresas são a chave para a economia sair da crise e reduzir a pobreza. Elas vão onde as grandes empresas não vão e são as que mais empregam. O que estamos a assistir é que não existe ainda uma estratégia da ciência do como fazer, para a sustentabilidade das ideias dos empreendedores. Um país na sua fase embrionária, as taxas de imposto industrial do sector não petrolífero, devem fixar-se em 15%. Isso estimula o surgimento de empresas familiares.  

Quénia ultrapassa Angola no topo das economias africanas e torna-se na terceira maior economia da região subsaariana, segundo o FMI. Na base está a queda do PIB. O que lhe parece?

Não estou surpreso. Já esperava isso, porque Angola foi a terceira maior economia de África de forma atípica. A nossa ascensão a terceira maior economia não foi resultado de aumento de produtividade. Foi simplesmente porque dormimos e acordamos ricos. Foi através do petróleo. Em 2002, o nosso PIB era de seis mil milhões de dólares e em 2013 subiu para 126 mil milhões, sem fazer nada. O nosso crescimento económico foi artificial. Os indicadores do FMI são claros: o Quénia vai crescer 1% e Angola vai decrescer 1,4%. E mais: eu já disse aqui, no programa, que o que vai matar não será a Covid, mas as medidas para conter o contágio. E um país que só pensa petróleo não sai do petróleo. Enquanto o petróleo é bênção para os outros países, aqui se transforma em maldição.