Partiu uma lenda do carnaval de Luanda

Partiu uma lenda do carnaval de Luanda

Dança carnaval há 39 anos. Até ao momento é o comandante que conquistou individualmente 14 títulos. Com o seu grupo, União 10 de Dezembro quatro troféus. Agora com 55 anos de idade, anunciou que este foi o seu último entrudo enquanto comandante. Esta notícia deixou colegas e dirigentes carnavalescos perplexos e, por isso OPAÍS, conversou com Pedro Vidal sobre as motivações da decisão, bem como os progressos e retrocessos do carnaval da capital

Que memórias tem do Carnaval de Luanda?

Muito boas. A começar com o Carnaval da Vitória em 1978. Aquilo sim foi um carnaval de verdade. Nós não dançávamos pelo dinheiro, mas por amor, paixão e coração. Os ensaios começavam entre os meses de Setembro e Outubro, sendo que a competição era apenas em Março. O que quer dizer que dos 12 meses do ano, seis dos quais eram dedicados ao carnaval.

Por quê acha que já não se vive o carnaval com esta intensidade?

Porque relativamente ao passado, hoje estamos mais preocupados com os valores monetários. Em que alguns tiram proveito para pôr mais um ou menos um trocado. A dinâmica já não é a mesma. Muitos de nós estamos mais preocupados com as nossas responsabilidades profissionais, sem, em contrapartida, procurarmos profissionalizar os bailarinos de carnaval que aparecem uma vez ao ano e acabou.

Paralelamente ao que refere tecnicamente ocorreram logicamente algumas mudanças no carnaval de Luanda. Quais foram as de realce?

Foram muitas, a começar pelo item do Comandante que de 1978 até mais ou menos 1987, quase que não tinha expressão. Os personagens principais eram o rei e a rainha, que eram guardados como se fossem ouro. Que depois evoluiu como figura central na década de 1990 onde curiosamente ganho no primeiro ano. Outro aspecto era o da música ao vivo. Hoje cantamos em playback, onde temos vantagens e desvantagens, provavelmente mais vantagens do que desvantagens.

Como assim?

Ora veja. Corres menos risco com a música em playback do que ao vivo. Na medida em que antigamente, você precisava de ter folego e acompanhar o grupo na mesma proporção. Muitos dos nossos camaradas fingiam estar com uma lata de refrigerante, afinal o líquido no interior era alcoólico. Quando fosse lá muitos deles descompassavam a batucada e estragavam toda a preparação, pois o resultado do copo era o estado ébrio. Por isso, defendo o playback, porque os riscos são menores. E depois era perto de 15 minutos. Sabe o que significa esse tempo, caríssimo? Não brinques (risos)… Ao vivo tem outro sabor mas no nosso caso, a opção pela outra via foi melhor.

E ao nível das danças?

Também. Antes não havia muitas coreografias. As varinas dançavam todas da mesma forma. Com o passar do tempo, foram nascendo novas criações mas respeitando sempre aquilo que é a base. Por isso, somos apologistas da modernidade, mas sem que se fuja à matriz. Por mais toques que cries, no Semba, por exemplo, se fugir daquilo que é a base, é tudo menos Semba.

Quer dizer que estamos entre avanços e retrocessos?

Nisso acrescento-lhe que perdemos a espetacularidade do carnaval. Uma coisa é tocar na rua e nas aberturas de ruas em que fazíamos a abertura da roda, onde o júri é o público para as devidas desforras, os insultos, as rivalidades e tudo mais. Porém, é diferente da competição onde por uma única falha, estás desclassificado. Enfim, perdemos a vontade de dançar, de envolver-se com o grupo de forma integral e muitos mais coisas.

“Vou passar o meu testemunho”

Anunciou aquando do desfile central que vai deixar de dançar porquê?

Pois. Mas vou explicar-me melhor. Não vou deixar de dançar o Carnaval. Apenas vou deixar de comandar o grupo, pois esta função exige muito do seu executante. Sinto que já é altura de passar o testemunho, porque se virmos não existe comandante algum com a minha idade. Reconheço que já não tenho a mesma ginga. Os 25 minutos na pista deixam-me totalmente cansado. Continuarei no grupo como dirigente e a preparar às futuras gerações.

Quem o vai substituir?

Ainda é cedo porque tenho vários substitutos, todos com potencial para o cargo. Daí que estou a analisar para quando tomar a decisão, não haverá margens para dúvidas na certeza de que a aposta foi a mais assertiva.

O seu grupo ocupou a 8ª posição. Ficou satisfeito com a posição alcançada?

Vou-lhe ser sincero e digo que sim. Temos que reconhecer que este ano, o nosso esforço foi para manter-se na classe A. Ganhar diante das dificuldades que enfrentamos é utopia. Daí ter dito também que este carnaval edição 2017, não foi da organização mas dos grupos. Valeu o esforço dos grupos que tudo fizeram para desfilar uma vez mais na Marginal com um apoio do Estado que chegou à vésperas do desfile enfim. Vamos continuar a trabalhar.

E quanto ao primeiro lugar e a restante classificação?

O União Mundo ganhou e bem. Vamos ter que reconhecer o esforço, apesar de estarmos numa competição, em que todos partem do princípio que não querem perder, mas temos um júri idóneo e soberano. Não há qualquer dúvida de que o Mundo, esteve bem. Não obstante os apoios conquistados de dirigentes do país, que não está em causa. Mas o empenho na pista. E precisamos lembrar aos nossos camaradas, que o que dá à vitória não é apenas um item. O júri classifica sete diferentes categorias em que o somatório, da alegoria, corte, painel, comandante, falange de apoio, dança, canção dá um resultado final que dita quem vence. Posso ser o melhor comandante mas não ter a melhor alegoria e vice-versa.

Perfil

Pedro Garcia Vidal é natural de Kangandala, província de Malanje. O seu nascimento data de 12 de Maio de 1962, no mesmo ano, já no mês de Novembro, fixou residência por via dos seus pais na cidade capital.

Considera-se originário de água doce e baptizado por águas salgadas.

Com o União 10 de Dezembro conquistou os títulos referentes às edições de 1991, 1999, 2002 e 2006.