O controlo do Covid-19 em Angola: fugas para a frente… e para os lados

Na estratégia anti-Covid em Angola marginalizaram-se dois parceiros fundamentais: a Família e o Sistema de Saúde.

A Família não foi tida em conta nos procedimentos da quarentena, que, salvo as inevitáveis e esperadas excepções, nunca foi com ela em casa, mas foi obrigatoriamente institucional, em instalações fora da cidade, cuja atribulada logística nunca chega para criar um ambiente confortável e acolhedor. Numa sociedade próxima da nossa, Moçambique, a quarentena, destinada a contactos e aos infectados assintomáticos (ou com sintomas leves) tem sido domiciliária, o que é prático, humanitário e certamente com menos custos para o Estado. Provavelmente, o receio de incumprimento das pessoas, sentido pelas autoridades angolanas não aconteceu em Moçambique: por diferença das pessoas (maior preparação, maior disciplina nas famílias moçambicanas?), ou mais tendências carcerárias e tiques autoritários entre nós?

O Sistema Público de Saúde, aparte algumas práticas de rastreio de suspeitos nos serviços de urgência, está completamente marginalizado no combate à epidemia: 75% do seu pessoal, desde médicos, enfermeiros e auxiliares, nos hospitais e centros de Saúde estiveram, nos períodos de estado de emergência, inactivos em suas casas, e este regime ainda não mudou sensivelmente até agora, argumentando-se, com fundamento, que as unidades não lhes fornecem equipamentos de protecção.

Mais grave ainda, reservou-se as funções de internamento de doentes a estruturas fora do Serviço activo de Saúde, construiu-se com apoio da Sonangol e das estruturas militares novos hospitais com mais de 1000 camas, todas fora da cidade a que agora se junta a decisão de gastar 40 milhões de dólares (a somar a outras enormes despesas já feitas e a fazer) no “Centro de Pandemias” do Calumbo (o jeito habitual de: (a) ver a árvore e não a floresta; (b) tirar partido das desgraças presentes para criar mais um futuro elefante branco…).

As presentes intervenções são as de outsiders do Sistema, são as acções que um empresário teria se o Governo o encarregasse de controlar a epidemia, indo criar estruturas paralelas. Não são a reacção dum Chefe do Sistema Nacional de Saúde que vai servir-se dos seus instrumentos, dos seus hospitais e dos seus recursos humanos, e adaptá-los e fortalecê-los. E a diferença é que o empresário vai improvisar uma solução de circunstância, enquanto um governante vai enriquecer o Sistema Nacional de Saúde, enriquecer a sua experiência e torná-la mais forte, mais coeso e racional para as futuras contingências… sim, também para as pandemias.

O que se está a observar é uma fuga para a frente (ou para os lados…), uma incoerência das medidas (a auto-satisfação com o controlo da epidemia choca com as provisões para internamentos massivos…), o propósito de repetir o erro da Barra do Cuanza e construir um hospital de Infecciologia fora da capital – enfim gestos eminentemente políticos que atiram dinheiro aos problemas, em vez de os resolver.

O conceito de Hospital de Doenças Infecciosas está datado no Hemisfério Norte, e por maioria de razão na África Sub-Sahariana, onde as doenças infeciosas continuam a representar uma grande parte do fardo das patologias (com uma grande zona cinzenta entre o que é infeccioso e o que não o é), o que torna os Hospitais Gerais como a instância mais adequada para lhes fazer frente. Naturalmente que estes hospitais devem incluir um sector de Infecciologia, para um certo número de doenças, variável de país para país, e dentro deste sector praticar medidas de isolamento mais ou menos estrito.

Portanto, em lugar de criar estruturas paralelas, era necessário equipar os grandes hospitais generalistas de Luanda com meios adequados nas suas enfermarias de Infecciologia, e, se necessário, aumentar o número de camas com estruturas provisórias como se fez em Madrid e noutras cidades do Hemisfério Norte. Paralelamente, far-se-ia o fortalecimento das Unidades de Cuidados Intensivos de cada hospital, para não ter que se recorrer às Clínicas privadas ou ao Hospital Militar.

É este sentido de alienação do sistema Público que está a levar a iniciativas com cariz mais político que técnico e que não têm contribuído para a motivação do pessoal do Sistema Publico de Saúde, que podia ter sido estimulado no seu amor-próprio e ter sido envolvido nas tarefas de despiste, rastreio e monitorização dos doentes se estes tivessem feito quarentenas domiciliárias.

Esta falta de integração com os Hospitais existentes ficou patente na lamentável situação vivida presentemente pela Clinica Multiperfil: um caso de infecção num hospital tem procedimentos próprios, que constam do protocolo dessa unidade, envolvendo isolamento da enfermaria, apuramento e confinamento dos contactos directos – mas nunca o isolamento e quase paralisação do hospital. Não se imobiliza, e muito menos em tempo crítico para a Saúde, uma das suas peças fundamentais. Não se faz “uma cerca” à mão direita ou à mão esquerda de ninguém. Nem mesmo na epidemia de Marburgo, em 2003, se encerrou o Hospital do Uíge, onde a doença vitimou doentes, enfermeiros e médicos: os efectivos do exército desinfectaram então as alas atingidas, para que o hospital continuasse a receber e triar os doentes suspeitos e a exercer as suas funções. Havia então com o apoio dos Médicos Sem Fronteira e várias especialistas da OMS e de outros Países, uma massa crítica que controlou a epidemia (sem cordões, ou – como se usa agora – cercas sanitárias) e a impediu de atingir Luanda.

Presentemente, parece que a ignorância e o medo estão no comando, e adoptam, defensivamente, tiques autoritários, desrespeitadores dos utentes, dos agentes de Saúde e das funções sociais do Hospital.

Luís Bernardino

Médico

error: Content is protected !!