Portadores de VIH ameaçam manifestação por falta de antirretrovirais

Portadores de VIH ameaçam manifestação por falta de antirretrovirais

O presidente da rede das organizações ao serviço da SIDA (ANASO), António Coelho, disse que as pessoas que vivem com VIH não tomam os medicamentos porque nas unidades sanitárias não os há e estão zangadas com a situação, daí a vontade de protesto.

Se os doentes não tomarem a medicação, poderão criar uma resistência que dará lugar a uma mutação viral, segundo explicou, correndo o risco de não fazer a mesma combinação quando chegar o medicamento.  “As reclamações e denúncias não são apenas de Luanda, mas sim da maior parte das províncias do país, e as pessoas estão preocupadas”.

Existe um total de 28 mil pessoas no país que beneficiam de tratamento com medicamentos de segunda linha, sendo que as mesmas, se produzirem alguma resistência à sua medicação, terão que evoluir, segundo a OMS, para terceira linha.

No país não há medicamentos de terceira linha, segundo António Coelho, o que poderá criar uma situação catastrófica. “Não se pode criar este tipo de situação, porque as consequências são graves para a saúde de muitos cidadãos, tendo em conta que os antirretrovirais são essenciais para as suas vidas”, recordou.

Os antirretrovirais estão subdivididos em níveis, sendo que o primeiro nível são as chamadas drogas genéricas, para os casos mais simples, e quando as drogas não fazem efeito nesta fase, passa-se para o tratamento de segundo nível, muito mais forte em relação ao primeiro.

Porém, se o segundo também não estiver a dar bons resultados, passa-se para o terceiro, que é ainda mais forte e, consequentemente, mais caro, uma linha de medicamentos a que o país não aderiu por falta de disponibilidade financeira, segundo aquele líder associativo.

De acordo com António Coelho, a questão da falta de medicamentos é um processo que está a ser tratado há mais de um mês e, em função da demora da resposta, os doentes pretendem fazer manifestações, por forma a chamar a atenção das entidades governamentais.

“A situação está a ser gerida pela ANASO porque não queremos expor as pessoas, do ponto de vista do estigma e da discriminação. Estamos a segurá-los para que não evoluam para uma manifestação pública. Mas estamos, simultaneamente, a pressionar as entidades no sentido de resolver com alguma celeridade o problema”, frisou, António Coelho.

Angola não fez “o trabalho de casa”

O presidente da ANASO defende que não é verdade que as fábricas não estão a produzir medicamentos, porque outros países, como Moçambique e Cabo Verde, estão a comprar os antirretrovirais.

“A situação de ruptura se deve ao mau trabalho de casa”, disse, porque não compramos na hora certa e agora temos as pessoas sem medicação que é essencial para as suas vidas e completamente aflitas.

Sobre as denúncias, disse que são várias, alguns estão a comprar antirretrovirais de origens suspeitas, outros estão a partilhar o que têm com os demais. A situação é muito séria e a ANASO está a falar com as instituições para a busca de uma solução rápida, para se resolver o problema nos próximos dias.

Acredita que se há dinheiro para lutar contra a Covid-19, deve haver também para a SIDA, Malária e Tuberculose. As pessoas que vivem com estas patologias estão com medo da  situação e querem manifestar-se porque não tomam os medicamentos há muitos dias e isto pode criar outros problemas de saúde.

“A ANASO está a fazer a sua parte e acredita que nos próximos dias vamos conseguir mobilizar apoios para a aquisição dos antirretrovirais de primeira e segunda linhas”, garantiu.

António Coelho explica que ANASO está a propor a realização de encontros regulares de coordenação e articulação entre os diferentes parceiros para fazer uma quantificação dos medicamentos ARV, à luz do actual protocolo, bem como ajudar a mobilizar fundos para capacitação do pessoal de gestão e logística dos insumos.

A ANASO entende ainda que pode ajudar o Governo na elaboração de um plano nacional de aquisição e distribuição de ARV no país, para prevenir as constantes rupturas de stocks. Pelo facto, a partir do seu observatório comunitário está a criar um banco de dados das pessoas vivendo com o VIH em tratamento e, a partir desse banco, será fácil fazer o levantamento das suas necessidades em alimentação e tratamento.

Esta organização está também a fazer uma grande campanha de advocacia para pressionar o Governo a libertar mais verbas para a compra de ARV, no sentido de deixar de depender de contribuições internacionais na solução de problemas sérios e elementares para a vida das pessoas como são os ARV.